Shakespeare escrevia por dinheiro: O goleiro da literatura

Este mês enquanto lia Ao Ponto do Anthony Bourdain me surpreendi em um daqueles raros momentos em que aprecio não só o livro, mas também a tradução dele. Assisto ao programa No Reservations há anos, e já estou bem familiarizada com o estilo desbocado de Bourdain e foi uma agradável surpresa perceber que o tradutor, Celso Nogueira, conseguiu passar com perfeição esse jeito de falar do autor para a nossa língua – o que convenhamos, não é fácil, ainda mais se considerar que além dos palavrões, Bourdain usa muito da ironia construída através de expressões, trocadilhos e afins.

Uma coisa dá em outra, e lá estava eu pensando em como o tradutor é o goleiro da literatura. Reparem como ele tá sempre lá, pelas bordas, algumas vezes até salvando o time, mas poucas vezes seus nomes se destacam numa constelação de artilheiros. Em literatura, o que primeiro se pensaria é que o gol é do Bourdain, e os méritos da vitória são dele. Mas não há mérito algum no trabalho do Nogueira? Por que é tão difícil para nós reconhecermos o papel dos tradutores na literatura?

Você reconhece? Certo, e qual é seu tradutor preferido? Você consegue pensar em pelo menos cinco nomes diferentes de tradutores? Não compreendam mal, não estou dizendo que eles devam virar celebridades. Mas esse cantinho escuro que muitos leitores (e algumas editoras também) acabam oferecendo para eles não me parece certo. Sim, editoras também. Dia desses estava dando uma olhada no site de uma editora até “grande” (digamos assim) e nas informações sobre o livro não consta o nome do tradutor. Como assim?

Isso para não falar do problema de quando cai nas mãos do tradutor uma bomba, e é ele que fica com a culpa. O último Jane Austen que li achei estranhíssimo no começo, e qual foi meu primeiro pensamento? Problema na tradução. Aí fui ler o original e descobri que não, a culpa era da dona Austen mesmo. Levei a questão para o pessoal da equipe, e o Gabriel (que é tradutor) disse isto aqui, que acredito ter bastante a ver com minha opinião sobre os tradutores:

Se o original não ajuda, não há milagre que faça o tradutor melhorar o texto (sem reescrevê-lo totalmente, óbvio). Se a obra for ruim e o tradutor bom, a tradução vai parecer ruim. Se o tradutor for ruim, ela vai parecer ainda pior. Mas de um jeito ou de outro, o tradutor é que costuma levar a culpa, não o autor. O pensamento da maioria dos leitores é: se leem uma tradução e acham o livro bom, é mérito do autor; se acham o livro ruim, é o tradutor o culpado. Difícil ver alguém falando bem de um livro pela tradução em si, comentando-a. Não que todos tenham que saber a língua original para poder comparar, pois dá pra saber se uma tradução é boa justamente pela fluência do texto (simplificando bem as coisas num dos pontos centrais pra não entrar nos detalhes dos outros aspectos que também são levados em conta). Se uma tradução ruim salta à vista pelos problemas que apresenta, o mesmo se dá com uma tradução boa justamente por não haver essa percepção de “tem algo errado neste texto”. É aquela coisa de o tradutor bom “desaparecer” na tradução – o que não significa que a crítica da tradução também deva sumir.

E eu acho que é também um pouco uma questão de hábito que podemos desenvolver, melhorar. Quando comecei a ler quadrinhos, eu mal sabia os nomes dos autores, com o tempo um amigo me ensinou a importância de reconhecer também o trabalho do artista responsável pelas ilustrações, hoje em dia eu não consigo falar de uma HQ sem comentar o trabalho do autor e do ilustrador, para mim é a combinação dos dois que leva ao todo. Se vou ler uma tradução, por que não fazer uma leitura semelhante?

Vocês vão começar a reparar que alguns nomes costumam estar sempre presentes em livros que você gosta. Um exemplo é o Guilherme da Silva Braga, que traduziu para a Hedra alguns títulos do Lovecraft e O Gato Preto e outros contos do Edgar Allan Poe. Tem também a Denise Bottmann que traduziu diversos títulos relacionados com História para a Companhia das Letras. O Caetano Galindo chega ano que vem com uma tradução de Ulysses, e dizem também que será o responsável por Infinite Jest. Ou seja, tá sem ideia sobre o que ler? Adote um tradutor favorito e vá atrás do que ele já traduziu.

Mas mais importante de tudo, comece a reparar em quem traduziu os livros dos quais você gosta. Um exemplo de como isso é importante é que os casos de plágio da Martin Claret passaram batido para muitas pessoas, poucos perceberam que eram MUITOS títulos creditados a uma pessoa só, como a Denise Bottmann reparou e colocou em seu Não gosto de plágio (o que inclui até tradutores de Machado de Assis, Eça de Queiroz e Gil Vicente, vê se pode!).

O que aliás me fez lembrar de uma anetoda, que conto aqui para encerrar a coluna deste mês. Prédio da reitoria, elevador com um punhado de estudantes de Letras conversando até chegar ao décimo andar. Os livros da Martin Claret eram novidade então, e estavam sendo comentados por dois alunos.

Fulano: Achei barato, acabei comprando um do Machado de Assis.

Ciclano: Mas e a tradução, é boa?

***

Em tempo, fui lembrada pela @biasmaal que hoje é dia do tradutor. Parabéns para todos os que trazem para o português grandes obras lá de fora!

***

Livros lidos:  Obax (André Neves), Ao Ponto (Anthony Bourdain), Arte e Letra Estórias: N (Vários), 40 Novelas (Luigi Pirandello), 24 Letras por Segundo (Vários), Paciente 67 (Denis Lehane), A lenda do cavaleiro sem cabeça (Washington Irving), Zuckerman Acorrentado (Philip Roth).

Leituras em andamento: Por que não sou cristão (Bertrand Russell).

Livros que chegaram: Obax (André Neves), Arte e Letra Estórias: N (Vários), 24 Letras por Segundo (Vários), Paciente 67 (Denis Lehane), A lenda do cavaleiro sem cabeça (Washington Irving), Zuckerman Acorrentado (Philip Roth), Por que não sou cristão (Bertrand Russell).

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6 thoughts on “Shakespeare escrevia por dinheiro: O goleiro da literatura

  1. que legal, anica, “goleiro da literatura” é um achado! e “adote um tradutor” é muito legal – e tudo o que vc disse, é isso mesmo!
    abraço
    denise

    1. Oi, Raquel, é o Persuasão. Eu não sei se acontece mais no começo ou mais pra frente eu me acostumei, mas tem umas frases com construções meio bizarras, tipo essa aqui:

      Tivera ela, quando muito menina, tão logo soube que seria ele, caso não tivesse um irmão, o futuro baronete, intenção de desposá-lo, e seu pai sempre a encorajara.

      que no original é igualmente truncada

      She had, while a very young girl, as soon as she had known him to be, in the event of her having no brother, the future baronet, meant to marry him, and her father had always meant that she should.

  2. Tenho vários tradutores adotados. Gosto do Manoel Odorico Mendes, do Carlos Alberto Nunes, do Feliciano Castilho (gosto dele mesmo quando ele traduz o Faust do Goethe do francês), do Jorio Dauster, do Houaiss (apesar de achar a tradução dele um pouco distante do Ulysses etc), do Haroldo e do Augusto de Campos, do Boris Schnaidermann, do Vasco de Graça Moura (pena que a editora que traz suas traduções pro Brasil seja a Landmark…), do Jorge Wanderley, do Cristiano Martins, do Donald Schuller, do Trajano Vieira, do Frederico Lourenço, do Sergio Flaksman, do Péricles Eugenio da Silva Ramos, do Eugenio Amado, do Paulo Bezerra, da Jenny Klabin Segall, do Pedro Garcez Ghirardi, do José Ramos Coelho, do João Franco Barreto, da Margarida Periquito (mesmo tendo lido só um trecho da tradução dela)…

    São muitos. Mas todos estes eu coloco a mão no fogo, confiança de verdade. Pode ser que existam outros… Mas eu não acabei por me lembrar.

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