Arte e Letra: Estórias N

Ao comentar a edição anterior da revista Arte e Letra: Estórias (M), falei da importância desse tipo de coletânea para não só apresentar novos autores como também resgatar alguns antigos, famosos em seu tempo, mas pouco conhecidos do público moderno. A edição seguinte, N, foge um pouco dessa proposta por trazer em quase sua totalidade nomes já consagrados da literatura, que tem bastante destaque atualmente, cada qual dentro do seu nicho literário. O que obviamente não é ruim – há contos ali que já tem algum tempo que gostaria de ler, mas ainda não tivera oportunidade, como por exemplo O cair da noite de Isaac Asimov.

Quem abre a coletânea é Katherine Mansfield, com As filhas do falecido coronel, traduzido por Beatriz Sidou. No melhor do estilo de Mansfield, temos um pequeno recorte de um momento da vida de personagens comuns, que acabam trazendo à tona muito do psicológico das personagens. Aqui, Josephine e Constantia refletem sobre suas vidas após a morte do pai, o coronel.

Segue então Um Lugar, talvez o mais recente dos contos, do curitibano Carlos Machado. O jogo que o autor faz com os dois momentos do conto, o do narrador-personagem que espia pela janela de uma pessoa, e então o foco mudando para a história dessa pessoa é realmente bem interessante. Como o título mesmo já sugere, o espaço é bem importante no contexto, com a personagem circulando entre Rio de Janeiro e Curitiba.

Abre-se então uma sequência para satisfazer qualquer fã de ficção científica e aventura, começando com Jules Verne e seu Um drama nas alturas (traduzido por Natália Florêncio). Para quem já conhece a prosa do escritor francês, basta saber que uma viagem num balão rende muitas emoções para o leitor, no melhor estilo montanha-russa como visto em Viagem ao Centro da Terra ou Vinte Mil Léguas Submarinas.

A seguir, temos O cair da noite, de Isaac Asimov, traduzido por Ana Cristina Rodrigues. Como mencionei anteriormente, há tempos buscava uma oportunidade de ler este conto, até porque trata-se de um dos mais famosos e premiados de Asimov, que é um dos nomes máximos da ficção científica. E não fiquei decepcionada, é realmente um texto muito bom – inclusive na crítica sutil que faz à religião e ao orgulho que temos de nossos conhecimentos avançados. Aqui somos apresentados a um grupo que observa a chegada de um eclipse que marca o fim de uma civilização de modo cíclico. É realmente genial.

Depois do desfecho melancólico de O cair da noite, A Letra U de Iginio Tarchetti (traduzido por Silvio de Bettio) chega em bom momento, quebrando um pouco a tensão. Embora nitidamente narrado por um louco obcecado pela letra U, não dá para negar que a história tenha um tom cômico, que inclusive chama a atenção por seu caráter moderno, considerando que foi escrito no século XIX.

Depois, somos apresentados a uma nova aventura de Allan Quatermain, de Henry Rider Haggard – autor famoso pel’As Minas do Rei Salomão. Em Chances Minguadas, traduzido por Adriano Scandolara, vemos o confronto de Quatermain e uma família de leões. É aventuresco e gostoso de ler tal e qual a história já comentada de Jules Verne.

A coletânea fecha com dois argentinos, o primeiro é Esteban Echeverría com seu O Matadouro, traduzido por Tiago Guilherme Pinheiro (sim, o Tiago aqui do Meia Palavra). Em uma crítica ao então governador de Buenos Aires, O Matadouro traz a história de uma cidadezinha que por conta de uma enchente passa um período sem carne – e descreve a reação do povo quando 50 novilhos chegam no dito matadouro. A crítica que Echeverría faz é carregada de ironia, e não é apontada apenas ao governador (como dá para perceber sobre as observações que ele faz relacionadas à igreja logo no início da história). Vale a pena conhecer o autor, até porque é um modo de saber um pouco mais da história da Argentina não sob o ponto de vista viciado das aulas dadas em escolas brasileiras.

Concluindo a Arte e Letra: Estórias N temos Um peixe no gelo, de Ricardo Piglia (traduzido por Iara Tizzot). Até então inédito no Brasil, o conto descreve a trajetória de Cesare Pavese até o suicídio a partir dos olhos de Emílio Renzi, que ganhara uma bolsa para estudar na Europa a obra de Pavese. O conto é montado com trechos do diário do italiano, misturados com os pensamentos de Renzi. É bastante interessante, e desperta a curiosidade sobre Pavese e, é óbvio, Piglia.

Assim, trazendo nomes consagrados da literatura, a revista Arte e Letra: Estórias N vem como um delicioso aperitivo para o que depois se sabe ser um banquete: procurar as outras obras desses autores. Com ilustrações de Arthur Rackham, famoso por ilustrar histórias como os contos dos Irmãos Grimm, a revista vem com todo aquele cuidado que já se conhece dos números anteriores, seja na escolha dos autores, seja no visual.

Arte e Letra: Estórias N
Autores: Katherine Mansfield, Carlos Machado, Jules Verne, Isaac Asimov, Iginio Tarchetti, Henry Rider Haggard, Esteban Echeverría e Ricardo Piglia
Tradutores: Iara Tizzot, Natália Florêncio, Beatriz Sidou, Adriano Scandolara, Ana Cristina Rodrigues, Silvio de Bettio, Tiago Guilherme Pinheiro.
Ilustrações: Arthur Rackham
104 Páginas
Preço sugerido: R$20,50

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Editora Arte & Letra

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