Persuasão (Jane Austen)

Quando iniciei a leitura de Persuasão, confesso ter feito isso pensando em “dar uma segunda chance” para Jane Austen. Gosto muito de Orgulho e Preconceito, mas a impressão que fiquei de Razão e Sensibilidade é que ela simplesmente se repete em tema, tipos de personagens e afins. Algo como: se você leu o mais conhecido, não precisa ler os demais, a não ser que queira replicar a experiência. Mas achei que estava sendo injusta com Austen e portanto resolvi conferir Persuasão, romance escrito no fim da vida da autora e que provavelmente refletiria um amadurecimento na escrita dessa.

A questão é que no início do livro, o que se vê sendo desenhado como base para o desenvolvimento do enredo são, de novo, os mesmo temas e tipos de personagens que já lera anteriormente. Lá estão os problemas das estruturas rígidas das classes sociais e a questão do casamento naquela sociedade, com personagens que pouco amadurecem ou mudam ao longo da narrativa. Mas foi mais ou menos na metade da leitura que me dei conta que estava fazendo isso do modo errado, considerando a superfície do enredo e perdendo assim a graça da prosa de Austen.

Se considerar a personagem principal, Anne Elliot, ela não tem nenhum antagonista direto e talvez por isso fique a sensação de mais do mesmo. Mas o antagonista de Anne é justamente as regras sobre modos e classes sociais que a fazem tomar uma decisão errada no passado: ela rompe o que seria a relação com um homem que amava (Wentworth), a partir do conselho de uma amiga, da não aceitação do rapaz pela família da moça e também do que é esperado dela pelos códigos de conduta da época. Anos depois, ainda solteira, começa a questionar esta decisão, e os dois ficam juntos especialmente quando Wentworth retorna rico.

E essa é a chave para Persuasão. Mais do que um romance, ele é uma sátira. Jane Austen a todo momento critica a sociedade e seu funcionamento, inclusive criticando de modo bastante sutil os próprios pensamentos de sua heroína, que no final das contas não é perfeita como uma Elizabeth Bennet, por exemplo. Sim, ela vai contra esse sistema social, mas ainda assim não teve a mesma coragem no passado e é importante destacar, o “final feliz” só é possível porque Wentworth enriquece e apesar de não ser calorosamente, ainda assim é aceito pela família de Anne. Um bom exemplo desse tom satírico aparece já no terceiro capítulo, quando o narrador fala de Anne e Wentworth no passado:

Ele era, naquela ocasião, um rapaz excepcionalmente atraente, de grande inteligência, coragem e brilho, e Anne uma moça muitíssimo bonita, dotada de gentileza, modéstia, bom gosto e sensibilidade. A metade de tais atrativos, de ambos os lados, teria sido suficiente, pois ele nada tinha para fazer e ela menos ainda alguém para amar, mas o encontro de tão generosas recomendações não poderia ser em vão.

Sobre a família de Anne, a impressão que fica é que é o maior alvo da crítica de Austen, já que por possuírem um título acreditam ser superiores mesmo quando não tem dinheiro. Walter Elliot, o pai de Anne, é o maior exemplo disso – ao gastar tanto acaba se vendo obrigado a arrendar a casa onde vive, e ainda se sente em posição de “escolher” ou mesmo julgar quem é que comprará. Ele aceita que a compra seja feita pelos Crofts, e é exatamente o que trará a ação para a narrativa, já que a Sra. Croft é irmã de Wentworth, e é o que possibilita o reencontro dele com Anne.

Não nego que Persuasão possa ser lido como um livro romântico, o problema é que essa definição acaba restringindo um pouco o público ideal do livro. Convenhamos, grande parte do público masculino tem problemas com histórias de “garota fica com o garoto”, digamos assim. Eu mesma, repito o que já foi dito anteriormente, torci o nariz para o livro achando que seria mais do mesmo.

Mas não é. Persuasão vai além e embora repita o tema de como as classes sociais acabavam se impondo nos rumos da vida de suas heroínas, ainda assim é bem mais ácido do que os demais, deixando o tom da sátira bem mais claro. E sob este aspecto, acredito que o livro seja indicado também por qualquer um que tenha interesse em romances de costumes, até pelo retrato fiel do pensamento de uma época já tão distante da nossa.

Persuasão
Jane Austen
Tradução: Celina Portocarrero
256 Páginas
Preço sugerido: R$15,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da L&PM Editores

COMENTE ESTE ARTIGO NO FÓRUM MEIA PALAVRA

Advertisements

3 thoughts on “Persuasão (Jane Austen)

  1. Adorei a resenha! Confesso que estava ansiosa para ler, pq eu ainda não consegui terminar o meu (Deve ser por causa da Landmark e sua tradução =P ) pq achei bem arrastado e tals. Acho que vou dar mais uma chance!

    1. a tradução pode fazer diferença sim, se bem que o estilo da austen não ajuda muito, pelo menos não no começo. frases como “She had, while a very young girl, as soon as she had known him to be, in the event of her having no brother, the future baronet, meant to marry him, and her father had always meant that she should.” são pepino para qualquer tradutor, hehe. e é como o gabriel comentou lá no fórum, no final das contas tradutor leva a culpa de ter feito um trabalho ruim quando às vezes o texto no original que é meio truncado mesmo.

      mas dê uma chance sim, eu acho que persuasão merece. se lido como uma sátira aos costumes da época, é realmente um livro muito legal.

      1. hmmm, to lendo um texto do Mia Couto que fala justamente isso. O problema na tradução não está só na mudança de palavras de um idioma para ou outro, mas também de pensamento 😉

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s