Shakespeare escrevia por dinheiro: Saudades de tudo que ainda não li

Sei que não é novidade, e sei que não acontece só comigo: chega uma hora e você percebe que não poderá ler todos os livros do mundo. Ok, pode ser exagero, uma versão literária do can’t hug every cat, talvez. Mas só sei que é bastante agoniante dependendo da situação, especialmente se ler é uma das coisas que você mais gosta de fazer. Alguém já fez as continhas por aí, mas vamos lá, pensando aqui que tenho meus 30 anos e pretendo viver até pelo menos os 80, tenho 50 anos de leituras. Leio em média 8 livros por mês, o que dá aí uns 96 por ano. Ou seja, mantendo o ritmo eu consigo ler uns 4.800 livros até os 80 anos. Você considere tudo o que já foi escrito e você ainda quer ler, e tudo o que está chegando nas livrarias a cada ano e você possivelmente desejará ler e pans, lá vem o sentimento, can’t read every book.

É em momentos como o em que estava com o livro We (Yevgeny Zamyatin) em mãos que essa sensação pesa mais. Porque aí fico pensando “Nossa, um livro tão legal, e eu poderia ter passado minha vida sem ter lido, achando 1984 a coisa mais original desse mundo”. Nada contra 1984, ainda acho o trabalho de Orwell genial. Mas aí você vê que ele assumidamente se inspirou nesse livro, e que a inspiração é, digamos assim, beeeem forte, e então você já pensa que bom, poderia ter ido direto da fonte.

Outro livro que li este mês que acendeu essa sensação novamente. No caso, eu reli A outra volta do parafuso, e aí no Posfácio dizia algo sobre Henry Miller considerar esse um trabalho inferior entre os outros que escrevera, que fez como “literatura para vender”. E adivinha quem ainda não leu Retrato de um Senhora, Daisy Miller entre outras que então possivelmente são muito melhor do que a novela que eu simplesmente adoro (a maior prova disso é que detesto releituras, e este é um dos poucos livros que reli).

Aliás, é justamente por esse sentimento de ter ainda muito para conhecer que não gosto de fazer releituras, por mais que eu saiba que sejam extremamente válidas (outro dia falo mais sobre isso). E também é um dos motivos que faz com que eu largue os livros sem peso na consciência, como comentei há uns meses. São só 4.800, gente. E eu ainda não conheço nada de Hemingway (meu kindle estragou bem quando ia ler Paris é uma festa), não li Nerval, não li Cortázar (que está na minha lista de resoluções de 2011), não li uma penca de russos deprimidos. Por falar em depressão, você não fica um pouco triste ao ver o tanto de coisa diferente que o Luciano aqui do Meia Palavra lê? Gente com nome que só um ctrl c ctrl v para ajudar a escrever, há. Eu vou anotandinho para um dia conferir, assim como fiz com gente bacana que conheci este ano, como Mia Couto, valter hugo mãe e Orhan Pamuk.

E se ao mesmo tempo o sentimento da enormidade de coisas pendentes, na lista do “para ler” não seja lá muito bom, por outro lado não é maravilhoso pensar que sua paixão se dá por algo inesgotável, que nunca perderá a capacidade de te surpreender? Que ainda há muito de novo (e entre essa novidade toda muita coisa antiga) para se conhecer? Digo isso porque uma outra paixão minha (ok, não tão grande quanto a por livros) é por filmes de terror. E eu já vi tanta coisa, que hoje em dia dificilmente consigo me surpreender com um filme como acontece nas minhas leituras. Às vezes em 15 minutos eu já sei o que será o resto da história. Para ter uma ideia, de horror um dos últimos que realmente me surpreenderam foi A Espinha do Diabo, que é de 2001 (aliás, recomendadíssimo se você gosta de histórias de fantasmas).

Então, se há algo para tirar disso tudo, é que se da próxima vez que cair nas suas mãos um livro que te faça repensar sobre tudo o que já leu, daqueles que mexam com você ao ponto de embarcarem na sua lista de favoritos, assim que a angústia dos livros para ler começar a bater, tente ver o lado bom da coisa. Ainda tem muito para se conhecer. Você não está ainda nem no começo do caminho.

Livros lidos: Lágrimas na chuva (Sérgio Faraco), 47 Contos de Juan Carlos Onetti (Juan Carlos Onetti), Dead Reckoning (Charlaine Harris), As aventuras de Ook e Gluk (Dav Pilkey), A página assombrada por fantasmas (Antonio Xerxenesky), We (Yevgeny Zamyatin), A outra volta do parafuso (Henry James), Almanaque Jornada nas Estrelas (Susana Alexandria, Salvador Nogueira), Boemia Literária e Revolução (Robert Darnton).

Leituras em andamento: Roadside Picnic (Boris Strugatsky, Arkady Strugatsky).

Livros que chegaram: As aventuras de Ook e Gluk (Dav Pilkey), A página assombrada por fantasmas (Antonio Xerxenesky), A outra volta do parafuso (Henry James), Almanaque Jornada nas Estrelas (Susana Alexandria, Salvador Nogueira), Boemia Literária e Revolução (Robert Darnton).

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11 thoughts on “Shakespeare escrevia por dinheiro: Saudades de tudo que ainda não li

  1. Pulei a parte das contas, já pensei buzilhões de vezes que não vou conseguir ler tudo e, embora isso dê uma sensação reconfortante ás vezes, sempre fujo das continhas que chegam a resultados meio deprimentes.

    O tom de conversa com o leitor que os seus textos tem é demais. Parabéns!

  2. leituras dos russos deprimidos hehehe

    Legal a coluna =D

    Eu também fico chocada com o porrilhão de escritores diferentes que o Luciano conhece XD [2]

    e alguns pelas resenhas dá vontade de ler na hora =S

    daí, vem aquela angústia que a Anica escreveu de que não dá para ler tudo,esse sentimento aumenta qdo estamos lendo uma obra que estamos amando, no meu caso “Deuses Americanos” para o Clube, um achado para mim esse ano *__*
    só de pensar de como não havia lido isso antes >.<

    mas, são essas descobertas deliciosas que faz a literatura tããão fascinante =)

  3. Isso é uma verdade das mais tensas… Livros demais. E, o pior, em idiomas demais- não vou conseguir nem aprender todos os idiomas e muito menos ler todos os livros.

    Mas eu nem acho que leia tanta coisa diferente. Quer dizer, até leio, mas acho que dado meu interesses, eu acabo ficando bastante tendencioso, indo pro lado de coisas que não são populares por aqui por motivos diversos- língua e o assunto tratado mesmo.

    1. considerar pela língua em que o livro foi escrito tb é agoniante. eu só leio em inglês, por causa disso minhas leituras são quase sempre de autores de língua inglesa. agora que tenho conhecido de outros lugares, mas meio pq estou me impondo isso. e é tanta gente para conhecer O_o

  4. Aí que a gente até pode sair do PC e ir ler um livro, para ter a ilusão de que vai ler um pouco mais do que poderia e muito menos do que queria, mas vai deixar de ler um texto batuta como o dessa coluna. Comofas?

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