A página assombrada por fantasmas (Antônio Xerxenesky)

As pessoas tem a falsa ilusão de que por serem mais curtos que romances, contos são fáceis de escrever. Pode até ser, mas bons contos não. É difícil dizer muito, causar sensações no leitor, criar personagens cativantes ou mesmo trazer uma boa história com tão poucos caracteres.  Some a isso o fato de que qualquer excesso no texto fica ainda mais óbvio, e já dá para perceber a série de dificuldades que um escritor enfrenta ao seguir por esse caminho. E é por conta disso que sempre fico muito feliz ao ter em mãos uma coletânea tão boa como A página assombrada por fantasmas, de Antônio Xerxenesky.

Os contos são enxutos, fluem de um jeito gostoso e pegam o leitor de jeito – especialmente se esse leitor for também um apaixonado por literatura. Correndo o risco de causar um efeito semelhante ao que acontece com a personagem Charles Mankuviac (do conto A breve história de Charles Mankuviac), a verdade é que A página assombrada por fantasmas é livro que fala de literatura. Mas de um modo delicioso (porque o leitor se reconhece em determinadas situações) e mesmo crítico (não dá para não transferir certas passagens para a realidade).

Livros estão por toda parte, são eles que assombram essa coletânea. Seja o primeiro que aparece, acalmando um narrador enquanto ele está indo encontrar um escritor que admira, sejam nos livros da Geração Z descrita pelo narrador do último conto, No segundo andar. O livro, a relação com o objeto, ler, escrever. Isso vai se repetindo de modo a alinhavar de forma coesa as narrativas dentro da coletânea (e dá para esquecer de quando uma personagem diz que se incomoda com “os jovens que reuniam meia dúzia de contos sem muita relação entre si” no conto que dá título ao livro?).

Há ainda a questão de Xerxenesky ser um escritor jovem. Minha bagagem literária é lotada de velhinhos bacanas, mas confesso ter lido pouca gente da minha idade (ou mais nova do que eu). E quando você tem em mãos histórias como Algum lugar no tempo, a verdade é que dá vontade de conversar com o escritor e perguntar como é que ele sabe tanto sobre você. É um passado fictício, mas não tem como não se ver ali, jogar no texto milhões de memórias pessoais de verões em família. Talvez até pelo fator nostálgico seja um dos meus favoritos neste livro, embora seja realmente difícil fazer esse tipo de seleção, todos são muito bons.

Ainda entre os favoritos, Esse maldito sotaque russo é uma história que mostra bem como o autor consegue se sair escrevendo conto, aproveitando tudo o que o texto pode oferecer mesmo que sejam poucos caracteres para desenvolver o enredo. Ele usa recursos como notas de rodapé ou mesmo parte do texto coberta para auxiliar no efeito a causar no leitor. Além disso, o mote também é muito bem sacado, um detetive que procura escritores reclusos – tem como não gostar logo de cara de uma personagem assim?

No final das contas A página assombrada por fantasmas é um passeio tão gostoso pela literatura que deixa nítido que o autor não é só um contador de histórias. É também alguém apaixonado por esse universo dos livros. Paixão tão grande que acaba inclusive influenciando a lista de leituras futuras de quem tem a obra em mãos: te desafio a terminar a coletânea e não correr atrás de Borges e Cortázar se ainda não conhecer esses escritores. Imperdível mesmo, especialmente para quem compartilha dessa paixão.

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