10 Perguntas e Meia para Luci Collin

Nascida em Curitiba, Luci Collin é mil em uma só: professora de Literatura na UFPR, graduada em Piano, Letras e Percussão, doutora em Letras pela USP. Já escreveu livros de poesia (Estarrecer (1984), Espelhar (1991), Esvazio (1991), Ondas e Azuis (1992), Poesia Reunida (1996), Todo Implícito (1998)) e de contos (Lição Invisível (1997), Precioso Impreciso (2001), Inescritos (2004), Acasos Pensados (2008) e Vozes num Divertimento (2008)). Também já traduziu obras como Re-habitar: ensaios e poemas, de Gary Snyder (Azougue, 2005), Etnopoesia no milênio, de Jerome Rothenberg (Azougue, 2006) e Contos irlandeses do início do século XX (Travessa dos Editores, 2007).É tanta coisa que é certo que esse breve parágrafo não apresenta tudo o que ela já produziu – e aguardem que tem um romance chegando por aí em breve!

E com isso fica claro que Luci Collin respira Literatura, o que reflete em seu trabalho, que somado ao senso de humor e sensibilidade ímpares, faz com que qualquer aluno que diz “odiar literatura” se apaixone em poucas horas. De Shakespeare à James Joyce, Luci conta histórias de contadores de histórias como ninguém. Ela topou responder nossas 10 perguntas e meia, que você pode conferir aqui.

1. Você pesquisou sobre Gary Snyder, um poeta associado aos escritores da Geração Beat. Tendo em vista a controvérsia que existe acerca dos méritos literários dos beats, o que a Geração Beat representou para a Literatura, na sua opinião? E em relação a visão de mundo, crítica do sistema, atuação política, postura espiritual?

Esta controvérsia é estéril, uma vez que é indiscutível a contribuição dos beats – em termos de estilo, temática e técnica – para a literatura. A Geração Beat, e aqui incluímos a revolucionária ficção de Jack Kerouac, herdeiro imediato de um dos maiores nomes da literatura norte-americana que foi Mark Twain, e de William Burroughs, mestre de técnicas como o cut-up, e a revolucionária poesia de Allen Ginsberg, herdeiro imediato de Walt Whitman.  Só esta tríade bastaria para afirmar a importância literária do movimento beat, mas a ela ainda podemos acrescentar as contribuições de Kenneth Rexroth, Lawrence Ferlinghetti, Michael McClure,  Diane di Prima, Gregory Corso  e Gary Snyder, entre outros. O impacto da literatura beat –  uma literatura que conjugou e absorveu elementos também da música, do cinema e de outras artes -,  extrapola os limites da produção literária e envolve o intenso questionamento de âmbitos diversos  da nossa cultura: a repressão imposta pelo sistema capitalista, a sexualidade, o abuso do poder político, a escravidão perpetrada pelo materialismo e pelo consumo em detrimento de valores espirituais, o livre pensar; a proposição de uma contracultura pelos beats representa que a literatura é um meio vivo de expressão e não uma súmula teórica de regras literárias desconectadas do pulso contemporâneo. Se alguém tem dúvida dos méritos, literários e culturais,  da Geração Beat, atesta que, se leu seus autores, os compreendeu pouco e que perdeu uma grande oportunidade de convívio com a expressão humana em um de seus momentos mais fulgurantes. Leiam os beats, os que duvidam deles.

2. Gary Snyder não ganhou a notoriedade que ganharam Burroughs, Kerouac ou Ginsberg, por  exemplo. Algum motivo especial para isso? O que estamos perdendo por não conhecermos mais sobre esse literato?

Com o poema “A Berry Feast” Snyder participou da famosa leitura de poemas na Six Gallery, em São Francisco no dia 07 de outubro de 1955. Este evento projetou a produção daqueles poetas em um   âmbito nacional e “Howl”, por exemplo, poema lido por Ginsberg naquela noite, tornou-se imediatamente o “hino” da contracultura. Mas, deliberadamente, Snyder saiu deste cenário em que se evidenciava a Geração Beat e foi, no mesmo ano, para o Japão, a fim de aprofundar seus estudos de japonês e a prática do zen budismo. Ficou anos no Japão e só se estabeleceria em definitivo novamente nos EUA no início da década de 1970. Isso gerou um desligamento de seu nome de toda a propaganda e atenção que a Geração Beat recebeu da mídia e da crítica. Com mais de trinta livros publicados, Snyder é hoje um nome reconhecido no mundo todo. Poeta, ensaísta, tradutor do chinês antigo e do japonês, antropólogo e ativista ambiental, vencedor do Pulitzer Prize, Snyder se afirmou como um dos maiores nomes da poesia e da ensaística norte-americana pos-moderna. Com base no pensamento oriental e na natureza Snyder renova a tradição poética desde Whitman passando por Pound e Rexroth; seu livro Myths and Texts, que resgata valores ancestrais e xamânicos da cultura ameríndia,  foi considerado pela crítica o sucessor direto do The Waste Land de T. S. Eliot – isso bastaria para evidenciar a importância do nome deste poeta na cena literária de hoje.

3. Em outra entrevista afirmou que daria o Nobel para Gertrude Stein, se possível fosse, poderia comentar mais sobre seus motivos para tal escolha?

Gertrude Stein, embora injustamente abafada da história do Modernismo, foi uma das vozes mais revolucionárias da literatura do século 20. Basta analisar os textos que a escritora produziu no início do século (e não na década de 1920, como outros modernistas de renome), e salta aos olhos a grande inventividade de Stein, a proposta revolucionária de seus conceitos literários, e a habilidade excepcional com que aplica estes conceitos à sua literatura. A justificativa para o apagamento do nome de Gertrude Stein pela crítica literária é que, em um momento de produção artística eminentemente masculina (Robert Scholes está entre os que afirmam que o Modernismo é um “movimento feito por homens”) ela desafia todas as convenções possíveis, não só as literárias: é mulher, judia, expatriada, homossexual e experimentalista radical  – que se recusa a explicar seus procedimentos estéticos, ou seja, pronta para ser invisível  aos olhos da crítica que acha mais fácil descartá-la do que compreendê-la. Quem leu com atenção o romance de Stein The Making of Americans: Being a History of a Family’s Progress, escrito de 1903 a 1911? Até o início da década de 1930, apenas William Carlos Williams percebe e aponta, com consistência, a importância de Stein. Vale lembrar que a escritora publicou com excelência nos três gêneros literários  e que operou uma revolução não só na ficção como também na poesia e na dramaturgia; criou conceitos como o “presente contínuo” e a “insistência”, desenvolveu o cubismo na literatura e a noção de retrato literário mas, diferentemente de James Joyce e de T. S. Eliot, por exemplo, não explicou suas próprias composições, acreditando que este seria o papel natural da crítica. Pagou um alto preço por isto. Infelizmente, dada a incapacidade desta crítica e de boa parte dos leitores – ainda agarrados a conceitos de realismo e linearidade – Stein foi descartada e até ridicularizada como escritora hermética e menor.  Mas o tempo vem recuperando a relevância do nome de Stein e cada vez mais se descobre a extraordinária qualidade da obra desta autora, inclusive aqui no Brasil.

4. Gertrude Stein foi uma das pessoas responsáveis por fazer o termo “Geração Perdida” ser usado mais amplamente para designar a geração de escritores como Fitzgerald, Hemingway, T.S. Eliot entre outros. Qual a relação dela para com esses escritores? E de que forma os temas caros a essa geração se instilam na obra dela?

Stein foi uma grande mentora intelectual de toda uma geração de artistas, não só de  escritores, mas de vários músicos, bailarinos, fotógrafos e artistas plásticos. Sua coleção particular de objetos de arte – não só da produção pré-moderna (como a de Paul Cézanne) e moderna (como de Picasso e Matisse), mas também com grande acervo de arte chinesa e japonesa -, exibida livremente nas paredes de seu famoso salon, em Paris, e as reuniões semanais que ela organizava em sua própria casa para que ali se discutisse arte e estética, influenciaram toda uma geração de novos artistas.  Stein é a mistagoga de Ernest Hemingway, Thornton Wilder, Sherwood Anderson, Paul Bowles, Virgil Thomson, entre outros. Na primeira fase de sua produção – até o ano de 1933 – que é marcada pelo experimentalismo radical, não há como encontrar temas da “Geração Perdida”, expressão que ela mesma cunhou referindo-se aos escritores mais jovens, cuja literatura ela via florescer.

5. Falando sobre a obra de Louis-Ferdinand Céline, Mario Vargas Llosa afirmou recentemente  que “A Literatura não é edificante”. O que pensa sobre isso?

Acredito que tenha se referido ao fato de que a literatura não tem obrigação nenhuma de ser  didática nem moralizante, de ensinar ou perpetuar valores ou sentimentos tidos como morais. O que deve ser é livre, sempre, e estética, sempre; deve evocar emoções profundas, experiências emocionais vigorosas e que conduzam a alguma reflexão, deve provocar alguma desestabilidade comovente que gere reflexão.

6. Para você, o que é melhor escrever, prosa ou poesia? Dos seus livros quais você acha que melhor representam sua produção literária?

Da perspectiva da escritura, prosa e poesia acabam sendo complementares, em relação às sensações que suscitam ao escritor tanto no momento da composição  quanto depois, quando os leitores começam a dividir suas impressões conosco. Dos livros que escrevi, tem muito de mim no Lição Invisível (contos); e, espero, mais ainda no Trato de silêncios (poesia), inédito ainda.

7. Quais seus livros preferidos? E quais sugestões de leitura você faria para alguém que diz que não gosta de ler?

Minha trajetória como leitora foi sempre muito aberta e, apesar de naturalmente ter freqüentado os clássicos, sem constrangimento de confessar isso, li muitos livros que chocariam os colegas acadêmicos e literatos por serem “literatura menor”. Não me arrependo, mas isto é a minha experiência apenas. Acredito que cada um vai construindo sua história como leitor. Há leituras que se fazem com o tempo – não basta dizer que ler Os Sertões é importante, que ler Ulisses é vital e você compra o livro e sai fruindo aquela literatura; há sempre o melhor momento para determinadas leituras. Eu sou uma leitora de trajetória  esdrúxula e sempre foi assim (não acredito muito em conselhos, regras ou gostos literários a serem impostos como os melhores). Para mim autores sempre fascinantes são  Eugéne Ionesco, Alain Robbe-Grillet, Osman Lins, Jorge de Lima e Samuel Beckett (além de Stein e Snyder, claro – tenho que ser pelo menos meio coerente…) entre outros. Para alguém que ainda não gosta de ler, busque algum livro que tematize algo de seu interesse; isso vai colocá-lo em franca conversa com o livro e com o autor. O prazer da leitura demanda atenção, liberdade e cumplicidade – dê ao livro a chance de, em algum momento, encantá-lo.

8. Você também é tradutora. Acredita que o tradutor é um traidor? O que vê de mais difícil na tarefa de traduzir uma obra?

É bastante difícil falar de tradução no Brasil pois infelizmente ainda não temos uma tradição de crítica de tradução em nosso país; isto nos leva a uma série de implicações , sobretudo ditadas pelo parâmetro mercadológico, que exacerbam as dificuldades do fazer tradutório. Assim, neste cenário da prática da tradução, a noção de “traidor”, em grande medida, oscilará muito. Temos excelentes tradutores no Brasil, mas que, às vezes, sucumbem a condições tenebrosas impostas pelo mercado; assim, nem sempre o bom tradutor pode dar-se ao luxo de traduzir apenas o que lhe agrada. Mercado à parte, na minha experiência, os problemas de tradução podem variar muito, de autor para autor, e abarcam desde dificuldades ligadas especificamente à linguagem, ao gênero ou ao estilo do escritor até dificuldades culturais mais amplas, que requerem traduções de elementos culturais.  O mais difícil é lidar com a frustração de saber que às vezes o máximo possível (para aquele momento, talvez, mas que será publicado) é passar ao leitor uma pálida cópia do que o original nos apresenta. Mas traduzir – significando revelar ou possibilitar a existência de uma obra em outra língua – é sempre um ato compensador para o tradutor.

9. Quais são as expressões irlandesas mais difíceis de traduzir?

Aquelas que não encontram correspondente imediato em português por pertencerem exclusivamente à cultura irlandesa, à sua história ou a contextos históricos e políticos mais antigos, da formação celta, por exemplo, com os quais o leitor brasileiro dificilmente estará familiarizado. Há muitos casos, na maioria palavras cujo sentido mais comum se perdeu ou se transformou na cultura irlandesa ou que estão ligadas ao idioma gaélico (irlandês). Frente a estas dificuldades, o tradutor deve contar com estratégias  e com muita criatividade.

10. Entre escrever e traduzir, qual a sua preferência? Por quê?

Embora estejam ligadas à produção escrita, aos desdobramentos da palavra, escrever e traduzir são atividades muito diferentes. Talvez tenham em comum a intenção de gerar comunicação, mas quando você produz seu próprio texto, há muito mais liberdade, você sabe quais os seus limites e intenções; na tradução, um bom tempo é passado até que você consiga vislumbrar qual o limite do texto a ser traduzido e, às vezes, por mais penoso que seja constatar isto, o tradutor não consegue se satisfazer com as soluções encontradas para determinados problemas de tradução. A leitura de um autor a ser traduzido deve ser muito cuidadosa,  o tradutor  deve se esforçar para se aproximar ao máximo do autor cuja obra apresentará em outro idioma. No aspecto lúdico, escrever e traduzir podem ser igualmente divertidos. No aspecto dramático também (rsrs).

1/2. Acasos pensados são… drops de caqui.

A Equipe Meia Palavra agradece a atenção de Luci, que disponibilizou seu e-mail para quem quiser fazer mais perguntas: luci_collin@yahoo.com

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