Sangue Quente (Isaac Marion)

A primeira vez que li Isaac Marion foi em uma tradução do conto I am a zombie filled with love que li no blog Jesus Me Chicoteia. Foi paixão a primeira leitura, entrou naquela seleta lista dos contos favoritos. Marion mostra ali um estilo bastante introspectivo mas ao mesmo tempo tão cativante, com passagens como “Não há um motivo real para nada disso mas, como eu disse, o mundo foi simplificado. O amor foi simplificado. Tudo é fácil agora. Ontem minha perna caiu, e eu nem liguei.“. E justamente por ter gostado tanto do conto é que fiquei muito feliz quando soube que Marion o transformou em um romance chamado Warm Bodies, e mais feliz ainda quando vi que a Leya trouxe para o Brasil a tradução desse livro, chegando aqui com o título Sangue Quente.

Mas aí caímos no velho problema das altas expectativas. É evidente que com Sangue Quente finalmente em mãos eu simplesmente devorei o livro, porque precisava ver o que Marion tinha feito daquela história que eu tanto gostara. A questão é que, infelizmente, o romance não fica a altura do conto, talvez justamente por ter que apresentar mais elementos que justifiquem o gênero (mais longo). Então por mais que o livro seja bom e valha a pena conferir, para quem conheceu I am a zombie filled with love fica um gostinho um pouco “agridoce”, digamos assim.

Descontado esse detalhe, é interessante ver o que Marion faz com o universo zumbi. De certa forma se aproxima muito do filme Colin, já que transforma o que é normalmente o antagonista das histórias em protagonista, oferecendo-lhe o ponto de vista da narrativa. E para quem pensa que isso significa “Miooooolos!” apenas, calma que não é bem assim. R, o narrador da história, pode até não conseguir falar de forma eloquente, mas seus pensamentos são tais como os de um humano. E até bastante profundos, o que gera uma série de ironias bem interessantes (e na maioria das vezes melancólicas).

E aí Marion também pega um dos meus pontos fracos: uma das personagens, Julie, parece ser fã de Beatles. Zumbis e citações mil de Beatles, tem como não gostar? Talvez a única coisa que eu teria deixado de fora são os momentos com o namorado de Julie, parece dar uma esfriada na história (e era sobre isso que eu falava da diferença do romance para o conto). Somando a isso momentos de ação típicas de histórias assim, além de ótimas explicações de porque os zumbis parecem ser tão apaixonados por cérebros, o fato é que Sangue Quente é realmente um ótimo passatempo para quem gosta de histórias de mortos-vivos.

Acredito, porém, que ele encontrará alguma dificuldade chegando aqui no Brasil, por dois motivos. O primeiro é aquela citação de Stephenie Meyer na capa. As fãs de Crepúsculo já tiveram tempo de migrar para outras obras, então não sei se isso funcionará para atrair esse público, e é provável que afaste os que não querem nem ouvir falar do livro de Meyer. O outro motivo é que apresentando a sinopse de forma breve, o que temos é um zumbi que se apaixona por uma humana. Aí a relação com Stephenie Meyer fica ainda mais problemática.

Então para quem está com medo de ter um Edward e Bella versão zumbis em mãos, fiquem tranquilos. Há sim o romance na história, isso é indiscutível. Mas em literatura o que mais vale não é bem o que se conta mas como se conta, e Marion dá um jeito de tornar esse plot até meio absurdo algo bastante interessante, e muito gostoso de ler. Dê uma chance para Sangue Quente, especialmente se for fã de histórias de zumbis. E se gostar, depois dá uma lida em I am a zombie filled with love para ver de onde o romance se originou.

Sangue Quente
Isaac Marion
Tradução: Cassius Medauar
Páginas: 256
Preço sugerido: R$ 34,90

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Editora Leya

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3 thoughts on “Sangue Quente (Isaac Marion)

  1. ATENÇÃO! CONTEM SPOILERS!
    cara, sinceramente, eu li o livro antes de ver qualquer recomendação, e digo que é decepcionante.o autor fez algo que adoro ver na literatura de ficção, mudar o ponto de vista, neste caso, para um zumbi, é genial. Até o meio do livro, a historia é interessante, mas a personalidade de R, aquele jovem sonhador, é triste de se ver. um zumbi seria alguém cuja mente fora desgastada por toda a brutalidade que viu, alguém obscuro, até mesmo sádico. o fato de ser inteligente(de verdade, faz comentários sobre a condição humana dignos de Freud) não incomoda, chega a agradar por dar um ar mais intectual a ele,mas agir como um adolescente apaixonado? isso não é digno de alguém que passou pelo que ele passou. o final foi o que mais me enraiveceu, contando logo, ele se cura graças “ao amor”. já não vimos isso antes, vamos ver, trilhões de vezes? para mim, seus pensamentos e a ideia do livro são excepcionais, mas deveria ter sido escrito como memórias ou em forma comentários, pois a historia em si deixa a desejar. acho que todos já nos cansamos de ver livros com essa necessidade de ter um final feliz.

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