Rosencrantz & Guildenstern Are Dead (Tom Stoppard)

Você gosta de Shakespeare? Gostou de Hamlet? Já teve contato com alguma coisa do teatro do absurdo? Gostou de Esperando Godot de Samuel Beckett? Sempre gostou de humor inteligente? Se você respondeu sim para qualquer uma dessas perguntas, saiba que é quase certeza que você irá adorar a peça de Tom Stoppard (o mesmo sujeito que escreveu o roteiro Brazil com o Terry Gilliam), Rosencrantz & Guildenstern Are Dead.

A base da ação da peça é Hamlet, de Shakespeare, porém os protagonistas são os amigos de infância do príncipe, conforme deixa claro o título. Hamlet aqui aparece raras vezes, assim como as demais personagens. Tudo é focado em Rosencrantz e Guildenstern, que em alguns momentos quase parecem se mesclar em uma personagem só. Eles passam o tempo fazendo jogos de palavras ou em longos silêncios, sem saber do seu destino.

A brincadeira com a inserção de personagens aparentemente tão desimportantes na grande peça de Shakespeare acaba trazendo à tona uma bela metáfora sobre a vida e, mais além, sobre o destino. O que acontece com Rosencrantz e Guildenstern está escrito, é definido não só pelo título da peça mas, mais do que isso, pela conclusão de Hamlet. Todos sabemos que no final do último ato se anunciará: Rosencrantz e Guildenstern estão mortos. É o equivalente de termos escrito em algum lugar da história de nossa vida o que acontecerá conosco. É inescapável, não importa o que se faça.

A melhor pista para eles (que parecem tão avoados com relação às suas vidas como Didi e Gogo de Esperando Godot) de que não podem lutar contra o fim ao qual estão destinados, é a presença da trupe de atores (a mesma que na peça de Shakespeare o príncipe contratará para encenar o que supunha ser a ação de Cláudio contra seu pai) que deixa claro para as duas personagens:

Bem, nós podemos fazer sangue e amor sem retórica, e podemos fazer sangue e retórica sem o amor, e nós podemos fazer os três juntos ou consecutivamente. Mas não podemos dar amor e retórica sem o sangue. O sangue é compulsório.

Ainda em um diálogo com Shakespeare, a vida seria uma grande peça, e os atores precisavam agradar seu público, que adora sangue. Rosencrantz e Guildenstern precisam cumprir seu destino, mais do que isso, viverão sem saber que esse o quinhão que cabe a eles até o momento que chegarão ao desfecho da “peça”, exatamente como nós mesmos fazemos. É possível ainda a leitura da diferença entre a vida e a arte (“não somos pessoas, somos atores”, diz em certo momento um membro da trupe).

O melhor é que Stoppard faz todo esse diálogo com Hamlet de Shakespeare e a vida de uma forma brilhante, com diversos jogos de palavra e um texto muito bem amarrado, temperado com um senso de humor delicioso que fará qualquer fã de comédias nonsense como Monty Python se empolgar com sequências de diálogos de Rosencrantz e Guildenstern, que se tirados do contexto parecem até inocentes, mas observado pelo todo são inteligentíssimos, como por exemplo:

Rosencrantz: Eu não acredito nisso mesmo.
Guildenstern: No quê?
Rosencrantz: Inglaterra.
Guildenstern: Só uma conspiração dos cartógrafos, então?

É uma peça genial, que ganhou uma ótima adaptação para o cinema com Gary Oldman e Tim Roth nos papéis principais, mas que infelizmente ainda não ganhou uma tradução aqui no Brasil ((os trechos citados aqui foram traduzidos por mim)) . O negócio é torcer para que as editoras lembrem que ele é muito mais do que “o cara de Shakespeare Apaixonado“.

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