Sandman: Entes Queridos

Eis o momento em que Neil Gaiman pega todas as linhas de histórias que apareceram até agora e une tudo em um evento só. Entes Queridos (Sandman 57 até 69) é o maior dos arcos de história de Sandman justamente porque é o que tornará coeso tudo o que foi visto desde Prelúdios e Noturnos, provando ao leitor que nada do que foi visto até então estava ali por acaso: fosse para mostrar a dinâmica dos Perpétuos, fosse para revelar o destino de Sonho como o conhecemos desde a primeira revista.

Variados personagens aparentemente sumidos retornarão, alguns ganhando maior importância do que anteriormente, como por exemplo Loki (que aparece pela primeira vez em Estação das Brumas) e Rose Walker (A Casa de Bonecas). Quase como uma sombra de nossas vidas, Entes Queridos mostra para o leitor o óbvio, de que toda ação tem uma reação, e que em algum momento teremos que lidar com elas.


E de forma muito esperta Gaiman dá a dica para isso abrindo Entes Queridos: 1 (o arco é dividido por números) mostrando as Fúrias, que em inglês são conhecidas como “Kindly Ones“, que é justamente o título original desse arco. Mas antes que pensem em atirar pedras em quem traduziu o título para Entes Queridos, saibam desde já que há uma relação importantíssima entre as Fúrias e os parentes que justifica completamente a escolha. Na conversa uma das Fúrias diz que tudo que é bom um dia termina. O mesmo acontecerá com Sandman, em breve.

O primeiro capítulo mostra como Lyta Hall está vivendo após os acontecimentos de A Casa de Bonecas. Ela vai procurar emprego em um restaurante que é administrado por ninguém mais, ninguém menos do que Lúcifer, que está vivendo entre humanos desde o arco Estação das Brumas, quando ele entrega as chaves do Inferno para Sonho. Lyta vai para a entrevista de emprego e quando volta para casa descobre que seu filho Daniel foi raptado. É o gatilho para o desenvolvimento da ação de Entes Queridos.

Em Entes Queridos: 2, Lyta recebe a visita de dois policiais que investigarão o sequestro: Luke Pinkerton e Gordy Fellowes. Ao descrever os eventos da noite do desaparecimento de Daniel, ficamos sabendo que a babá foi encontrada dormindo no chão, completamente apagada. E que Daniel costumava chamá-la de Wosie. O nome parece familiar?

No capítulo seguinte descobrimos que Loki é o sequestrador de Daniel, embora ainda não fiquem claros os seus motivos. Enquanto isso Sonho reencontra Hob Gadling, que acaba de perder a esposa. No fim do encontro Gadling alerta Morpheus que ele está cheirando a Morte. É interessante ver os encontros de Gadling com Sonho, porque é um dos momentos em que Sandman fica mais “humano”, menos frio. Ao se despedir agradecendo pelo alerta isso fica bastante claro: é o tipo de coisa que o arrogante Sonho não costuma fazer.

Neste mesmo capítulo os agentes Pinkerton e Fellowes aparecem para informar Lyta que encontraram Daniel, e mostram uma foto do bebê carbonizado. Em choque, a primeira coisa que ela consegue lembrar é das últimas palavras de Sonho para ela: que Daniel pertencia a ele, e que um dia ele retornaria para buscá-lo.

Em Entes Queridos: 4 encontramos Lyta Hall vagando completamente alucinada pelas ruas da cidade. Vem também a confirmação de que “Wosie”, a babá que dormiu quando Daniel foi raptado é Rosie Walker. No capítulo seguinte Sonho começa a se preparar para o que sabe ser uma tempestade que se aproxima. Algo que chama bastante a atenção neste arco é como os Perpétuos ficam distantes dos acontecimentos principais, e personagens que outrora eram secundárias, agora são fundamentais. É o caso de Loki, que no desfecho de Entes Queridos: 5 revela para Carla que é o agente Pinkerton e a assassina logo a seguir.

O sexto capítulo funciona quase como um interlúdio, com Rosie Walker viajando para encontrar a avó Unity, que contará para ela uma história. É a segunda vez que o termo vingança vem à tona nesse arco de forma bastante explícita, sendo que na primera foi no encontro de Sonho e Gadling, quando o primeiro fala que vingança normalmente trazem consequências. Gaiman aos poucos vai delineando a conclusão não só do arco, mas de toda a saga de Morpheus.

Em Entes Queridos: 7 a personagem que reaparece é Thessaly, de Um Jogo de Você. Ela vem para ajudar Lyta, que continua desorientada e alucinada – e promove um encontro dessa com as Fúrias, que no fim lembram que Sonho matou o próprio filho. Aqui vale destacar uma característica marcante das Fúrias, de que elas punem os crimes de sangue, ou seja, a partir do momento que Morpheus matou Orpheus (a pedido do filho, no final de Vidas Breves), ele traçou seu destino.

Seguindo para o capítulo 8, vemos os preparativos de Sonho que de certa forma já sabe que terá um grande confronto em frente. Lyta Hall aparece no Sonhar como As Fúrias, apenas para avisar Morpheus que destruirá seu reino e então ele. A princípio Sonho não parece achar que ela de fato conseguirá isso, mas por conta da destruição dos guardiões dos portões do Sonhar, ele já não parece ter tanta certeza.

Entes Queridos: 9 é marcado principalmente pela busca de Coríntio por Daniel, e consequentemente do confronto da criatura de Sonho com o deus antigo. É um dos pontos altos desse arco, até se for lembrar que o Coríntio é um pesadelo. Começamos a ver também a destruição do Sonhar, a começar por Fiddler’s Green, que aparecera anteriormente como Gilbert em A Casa de Bonecas.

Seguimos vendo a destruição do Sonhar pouco a pouco, e Morpheus insistindo em permanecer no local por conta do que diz ser suas responsabilidades. Em um primeiro confronto com Sonho Lyta vê Daniel nos braços de Coríntio e pede que as Fúrias a ajudem a resgatar a criança, evitando o fim do Sonhar. A isso as Parcas respondem que elas apenas matam, e uma vez que Orpheus está morto, o mesmo deve acontecer com o rei do Sonhar.

Chega então Morte no Sonhar. É o fim de Morpheus como o conhecemos, dando lugar a um novo aspecto de Sonho, personificado por Daniel, agora já adulto. Esse Sonho não mais se veste de negro e carrega um rubi: ele usa roupas brancas e tem consigo uma esmeralda. O desfecho do arco é bastante melancólico, não é possível dizer que alguma personagem tenha ali um “final feliz”. E as despedidas ficaram por conta de O Despertar, último arco da série Sandman.

O importante de se ressaltar aqui é a coragem de Gaiman de matar a personagem principal, e de forma definitiva. Em tempos em que se vê revistas como X-Men perpetuando a ideia de que uma personagem morre e logo depois volta, Gaiman dá um fim para Sonho e, mais do que isso, desenvolve um conceito raro nas revistas em quadrinhos, de sagas com começo, meio e fim.

E justamente por marcar esse fim que Entes Queridos é um arco tão importante no universo de Sandman. Mesmo que vejamos tão pouco dos Perpétuos, pelo menos se comparado com a participação das personagens secundárias, ainda assim é sem dúvida um dos melhores momentos de toda a série, até porque coroa todos os esforços de Gaiman ao criar essa mitologia tão rica.

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8 thoughts on “Sandman: Entes Queridos

  1. Meu volume favorito de Sandman, Sua resenha quase me inspirou a reler a série, mas ainda vou esperar mais uns anos. Tá muito recente em minha cabeça.

    1. Não espere anos =P Confie em mim, com poucos meses você já vê um monte de coisa diferente numa releitura de Sandman, Wilson ^^

      1. ah, mas aí perde a mágica da coisa. de resgatar um clássico tão importante de sua juventude XD

  2. Como sonhador, adorei o seu texto, Anica. Embora ache que o mestre Gaiman tenha dado uma ‘volta’ nos leitores – Sonho não morreu (ele é Perpétuo, afinal). E como diz Abel em um trecho da hq: “Houve uma mudança de perspctiva”. Quer dizer, ele mudou – como Deleite virou Delirium -, apenas isso. E Daniel, seria filho dele? Acho que apenas um fragmento dele, já que o garoto foi concebido no Sonhar. De qualquer forma, seu texto está excelente. 🙂

    1. Daniel não é filho de Sonho, e eu não disse isso no texto. Ele é filho de Hector e Lyta, gerado dentro do Sonhar e por isso o interesse de Sonho pela criança – ele provavelmente já tinha em mente que ele seria a próxima personificação de Sonho e por isso disse que a criança lhe pertencia, porque em algum momento ele iria para o Sonhar assumir as responsabilidades desse Sonho.

      Eu acho que ele morreu sim, esse conceito de Sonho (vestido de preto, que foi apaixonado por Caliope, Thessaly e outras) foi levado pela Morte. No lugar dele, assumiu a nova personificação (Daniel). É uma nova perspectiva, o Sonho continua, mas aquele não mais. E algo deixar de existir para mim se aproxima bastante do conceito de morte.

      Mas é claro, essa é *minha* leitura. A gente percebe quando um texto é bom quando acontece justamente isso: a possibilidade de leituras variadas, dependendo da visão de cada leitor.

      No mais, obrigada pelos elogios ;D

  3. Oi, Anica 🙂

    Eu acho que me expressei mal.
    Você realmente não disse que Daniel é filho do Sandman – eu que formulei uma indagação, pois acho que Gaiman brincou com essa questão da ‘concepção’ de Daniel no Sonhar.
    No mais, seu texto é brilhante (aliás, como tudo aqui no blog).
    Parabéns 🙂

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