Lolita (Vladimir Nabokov)

Publicado originalmente em 1955, Lolita do escritor russo Vladimir Nabokov chega com nova tradução no Brasil pelo selo Alfaguara. São aí mais de 50 anos que dividem o momento da primeira publicação (após a recusa de diversos editores) para essa tradução de Sergio Flaksman. E mesmo com todo esse tempo, Lolita ainda é um livro moderno, que mais do que sobrevive ao tempo: consegue se moldar de acordo com o momento em que o leitor tem o livro em mãos.

Isso porque para quem passa da primeira parte do romance, fica mais do que óbvio que ele vai muito além do suposto teor erótico que marcam os primeiros momentos do livro. Nabokov chega a zombar no artigo “Sobre um livro entitulado Lolita” (escrito em 1956 e presente nesta edição da Alfaguara) que alguns dos leitores que abandonaram a obra o fizeram levando em conta a primeira parte, achando que a narrativa seguiria esse caminho. E complementa: “Se acharam ou não que seria pornográfico não me interessava. Sua recusa em comprar o livro baseava-se não em meu tratamento do tema, mas no tema em si, pois existem pelo menos três temas que são totalmente tabu no entender dos editores americanos.

Vencido então o tabu – a fixação do professor Humbert Humbert pela enteada Lolita, de apenas 12 anos, o que temos em mãos é talvez uma das mais belas e complexas teias já elaboradas na ficção em língua inglesa. Um romance que muda tal como um caleidoscópio do tom confessional (na parte dos diários de Humbert) para o mistério (quando passa a focar em um suposto perseguidor), que se apresenta como vários em um só. Denso, porque a opção de Nabokov pelo narrador em 1ª pessoa nos mostra o pior do homem, aquilo que normalmente jogamos embaixo do tapete.

Mas ao mesmo tempo ainda busca o belo no lodo, como um espelho perfeito da alma humana, cheia de falhas que fazem dela o que é. Humbert busca alguma absolvição em sua confissão, mas não deixa de mostrar (talvez até por conta da mente completamente paranóica) que Lolita está com ele por não ter mais opção, por estar só, podendo contar apenas com o padrasto. É uma criança que muitas vezes é retratada como mimada e interesseira, isso já na marca da fala da própria mãe. Talvez um truque do narrador para aliviar um pouco o peso da culpa que carrega.

Porém, dada toda a paixão, a adoração por Lolita, o que o narrador consegue é fazer com que o leitor se encante pela menina, que segue sua natureza até o fim, lutando por seus próprios caminhos, o que leva a um desfecho de relação completamente melancólico e que pesa muito mais se o leitor repassar os olhos no prefácio do romance, escrito pelo fictício editor John Ray:

Sua filha, “Louise”, cursa hoje o segundo ano da universidade. “Mona Dahl” estuda em Paris. “Rita” casou-se recentemente com um proprietário de hotel na Flórida. A sra. “Richard F. Schiller” morreu no parto, dando à luz uma menina natimorta, no dia do natal de 1952, em Gray Star, localidade do extremo noroeste dos EUA. (…)

A conclusão do romance nos é antecipada, mas ao mesmo tempo não temos realmente consciência disso enquanto passamos os olhos por esse parágrafo. São nomes que nada significam, porque o leitor ainda não foi apresentado à galeria de personagens que tomarão conta da narrativa. Um artifício genial de Nabokov, que consegue nos poupar de um excesso de palavras que poderia arruinar o efeito do desfecho, belíssimo.

O leitor deve estar preparado para saber que, como Humbert ressalta ao longo da narrativa, é um livro sobre Lolita. E tal e qual uma menina crescendo, a narrativa também se desenvolve, mudando muito de um momento para outro – chegamos até em um ponto que lembra muito um “road movie”, com as personagens viajando pelos Estados Unidos, por exemplo.

Uma ótima edição da Alfaguara, com interessantíssimo posfácio de Martin Amis, talvez o único porém seja a opção do tradutor Sergio Flaksman em não incluir em nota de rodapé traduções das expressões em francês usadas por Humbert – em determinados momentos a compreensão dessas é crucial para o romance, e quem não domina a língua francesa pode acabar ficando sem entender o humor de Nabokov quando seu narrador se irrita com o dito “francês ruim” da mãe de Lolita, por exemplo.

De qualquer forma, não é nada que realmente estrague a leitura. Lolita é um romance poderoso, disso não há dúvidas. Nabokov conseguiu com que uma personagem continuasse viva no imaginário coletivo mais de 50 anos após a publicação original: mesmo quem não leu o livro ou nunca assistiu a uma das adaptações do romance, ainda assim sabem de quem Humbert Humbert tão desesperadamente fala ao longo das páginas dessa obra.

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Lolita
Vladimir Nabokov
Tradução: Sergio Flaksman
392 páginas
Preço sugerido: R$ 49,90

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8 thoughts on “Lolita (Vladimir Nabokov)

  1. Um dos melhores livros que eu já li. E olha que eu pensei que seria folhetinesco.

    Mas porra, mais uma edição sem traduzir o francês. Assim é de foder hein

  2. Mas Antonio: traduzir o francês nabokoviano é besteira. Faça-se como Vivian Darkbloom (anagrama de Vladimir Nabokov) em Ada ou Ardor: crie-se um índice de notas para algumas expressões. Algumas. Em Nabokov, expressões linguísticas de outras línguas, geralmente russo (limitando-se na maioria dos casos a uma ou outra palavra — uma ou outra taça, como diria Vadim) ou francês (em frases completas ou fragmentos das mesmas), sempre escondem um trocadilho referencial. Nomes, paráfrases e derivados.

    De todo, parece ser uma boa tradução. Talvez. O primeiro parágrafo do texto (Lolita, light of my life, fire of my loins) costuma ser o grande indicador, tal qual o Canto XVIII do Inferno da Divina Comédia ou a primeira palavra do Ulisses. Flaksman fez um trabalho belíssimo com “A Pessoa Em Questão”.

    1. Gosto de ver Lolita como um folhetim bem próximo de Madame Bovary: a diferença é que Dolores Haze não é mulher inteiriça como Ema… E Humbert está mais pro farmacêutico com tons dum Charles paranóico.

    2. Eu não acho que a tradução no texto seja uma boa opção mesmo, mas as notas são necessárias, sim. Quem não entende nada de francês bate os olhos naquelas passagens e por não encontrar sentido, daria na mesma que elas não existissem (e óbvio que não dá na mesma, há uma razão para elas estarem ali).

      Acredito que uma tradução completa deveria vir no mínimo com notas de rodapé, especialmente quando o que foi dito em francês compromete o sentido do que vem a seguir no texto (como o exemplo que citei da qual Humbert falava do fraco francês da mãe de Lolita).

      Quanto à qualidade da tradução, eu não li no original então não posso falar se é realmente boa ou não. O que achei positivo é que o texto fluiu e não causou estranheza (como acontece invariavelmente com traduções ruins), mas uma crítica mais completa à tradução carece da leitura no original.

  3. Olá, só passei aqui para dizer que não acho que caberia a mim, como tradutor, decidir se as expressões em língua estrangeira deveriam ser objeto de notas, quando o autor, no original, se limita a deixá-las em itálico, sem mais, Pessoalmente, acho que notas de pé de página ao longo de um texto de ficção atravancam a leitura, mas isso é o de menos; o que me preocupa mesmo é que, caso eu me desse a licença de abrir notas para esclarecer os trechos em francês, poderia me sentir autorizado a esclarecer para o leitor dezenas de outras alusões mais ou menos óbvias ou cifradas do original que o autor, por opção, mantém sem realce, para serem garimpadas. Por que só esclarecer as expressões em francês, afinal bem fáceis de entender para qualquer leitor que já chegou até aqui? (Embora seja bem verdade, admito, que o conhecimento do francês para os leitores de 50-60 anos atrás era bem mais generalizado que nos dias de hoje…)
    Enfim, era isso, obrigado pela atenção.
    Sergio Flaksman

    1. Sergio, compreendo seu ponto de vista, mas discordo sobre a última parte: as expressões do texto não são “bem fáceis” de entender, é necessário o mínimo de conhecimento de língua francesa, que, como você mesmo aponta, não é mais tão comum como há 50-60 anos. Uma vez que acredito que o público do livro não seja pessoas educadas há 50-60 anos atrás, então continuo achando que faltou sim algum auxílio para aqueles que não entendem francês. até porque convenhamos, do mesmo jeito que notas atravancam a leitura, o não entender certos trechos também causam esse efeito, não?

      No mais, obrigada por ter passado por aqui esclarecer a questões sobre a tradução, não é sempre que podemos contar com o próprio tradutor opinando aqui ;D

      abraço!

  4. que legal =D
    umas das minhas metas de 2011 ^__^
    narrador em 1ª pessoa? interessante pensava q era em 3ª, a 1ª deixa o leitor mais íntimo
    com o narrador , eu acho 🙂
    boa ironia no artigo feito pelo Nabokov

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