Os conceitos de leitor-modelo e alegoria aplicados a Tolkien

Fãs de Tolkien não discutem sobre a qualidade da obra, ou sobre a complexidade do mundo criado pelo autor – é fato, para todos, que O Senhor dos Anéis é possivelmente um dos melhores livros de fantasia de todos os tempos. Mas quando entramos no campo da interpretação da obra… Aí chovem discussões. De asas de balrog até a natureza de Tom Bombadil, não há leitor que em algum momento não tenha debatido sobre algum tópico da obra mais famosa do Professor.

A proposta deste artigo é, através de conceitos de Teoria Literária, elucidar uma das questões que freqüentemente costuma vir à tona quando a trilogia do Anel é estudada: a idéia da obra como uma alegoria da Grande Guerra.

Antes de partirmos para as palavras do próprio Tolkien, é melhor compreender algumas questões teóricas, portanto, para começar, a própria definição de alegoria segundo Massaud Moisés no Dicionário de Termos Literários:

Etimologicamente, a alegoria consiste num discurso que faz entender outro, numa linguagem que oculta outra. Pondo de parte as divergências doutrinárias acerca do conceito preciso que o vocabulário encerra, podemos considerar alegoria toda concretização, por meio de imagens, figuras e pessoas, de idéias, qualidades ou entidades abstratas. O aspecto material funcionaria como disfarce, dissimulação, ou revestimento, do aspecto moral, ideal ou ficcional.” (MOISÉS, 1991, p. 15-16).

Guardem esta definição no bolso porque retornaremos a falar dela logo mais. Agora, precisamos entender sobre um termo utilizado por Umberto Eco em Lector in fabula ao falar da relação entre a obra e o leitor, mais especificamente sobre a cooperação interpretativa de textos literários: o leitor-modelo. Segundo Eco, este seria “um conjunto de condições de sucesso, estabelecidas textualmente, que devem ser satisfeitas para que um texto seja plenamente atualizado em seu conteúdo potencial”. (ECO, 1985, p.80).

Isso significa que quando um autor escreve, ele espera que o leitor visualize determinadas coisas, ou sinta determinadas sensações – ele tem uma intenção. Por causa dessa intenção, ou dessa tentativa de surtir um efeito no leitor, o autor optará por uma série de elementos (ou a falta deles, culpa que Tolkien assume sobre os poucos detalhes que temos de Bombadil, por exemplo).

Para entender melhor este conceito de intenção, tomemos como exemplo o romance policial: quando Conan Doyle escreveu as histórias de Sherlock Holmes, provavelmente a última coisa que ele desejava era que o leitor soubesse já no começo quem era “o assassino”, portanto sempre ocultou ao máximo possível informações mais diretas, que poderiam conduzir o leitor a uma conclusão imediata.

A trama se desenrola de tal forma que o leitor descobre “pistas” ao mesmo tempo que o detetive, podendo assim ter o prazer de desvendar o crime como se estivesse junto com ele – na realidade, reparem como Watson “encarna” o leitor, acompanhando Holmes, enxergando a história como uma pessoa comum, e não alguém especializado como o detetive.

Assim, o leitor-modelo das histórias de Sherlock é aquele que decide entrar na brincadeira de descobrir quem é o culpado durante a leitura (e não aquele pessoal que decide ler a última página antes de ler o livro, é claro).

Deste modo chegamos ao que seria o leitor-modelo de O Senhor dos Anéis e, principalmente, a relação disso com a questão da alegoria que muitos enxergam na hora de “interpretar” a obra. Que tipos de pistas Tolkien pode ter deixado no romance para que pudéssemos chegar a alguma idéia de qual efeito ele desejava causar no leitor?

A melhor pista é o cuidado que Tolkien teve com a “criação” da Terra-média. Se nossas edições apresentam Mapas detalhados, apêndices com genealogias, cronologias e, principalmente, explicações sobre escrita e ortografia das línguas criadas por ele, já temos aí uma base sólida para afirmarmos que, antes de mais nada, Tolkien queria que tudo fosse tão bem detalhado, que quando o mundo criado por ele viesse à nossa mente, o enxergássemos como uma lembrança, quase como se fosse de fato real.

Mas essas não são as únicas evidências, temos uma peça ainda mais importante: o Prólogo. É nesse momento que Tolkien nos apresenta o autor-modelo do livro, aquele que, segundo Eco, “é uma voz que nos fala afetuosamente (ou imperiosamente, ou dissimuladamente), e nos quer a seu lado. Essa voz se manifesta como uma estratégia narrativa, um conjunto de instruções que nos são dadas passo a passo e que devemos seguir quando decidimos agir como um leitor-modelo” (ECO, 2006, p.21).

Durante o Prólogo, quando lemos os seguintes dizeres, não de Tolkien (autor), mas de uma outra pessoa que assume o papel de narrador: “Essa história originou-se dos primeiros capítulos do Livro Vermelho, escritos pelo próprio Bilbo” (TOLKIEN, 2001, p.1), está claro que a idéia principal por trás de O Senhor dos Anéis é deixar de lado o que temos como mundo real para aceitarmos como verdadeiro aquele mundo de Elfos, Orcs e anéis mágicos.

Por “real” significa não julgarmos os fatos apresentados, questionando que tais criaturas não existem, mas deixar-se levar pela história contada para nós. Esta experiência costuma ser definida como “suspensão da descrença”: o leitor sabe que a história é imaginária, mas durante o momento da leitura não vê todo o universo retratado na obra como um punhado de mentiras, ele se deixa absorver pelo “novo” mundo, no qual as “regras” ditadas pelo autor são sempre verdadeiras.

Em outras palavras: se Tolkien diz no romance que existem Ents que foram abandonados pelas Entesposas, vamos querer saber o motivo, mas não alegaremos que Entesposas não podem abandonar Ents partindo do princípio que eles não existem. Assim, ao fechar o livro, o leitor sabe que não correrá o risco de encontrar com Barbárvore em uma esquina, mas durante a leitura ele chegará até a criar simpatia (ou antipatia) pela personagem, a enxergando como peça fundamental de um momento da ação.

O problema é que em determinados momento o leitor não consegue aceitar plenamente a fantasia, e passa a criar pontes para relacionar o que está acontecendo no romance que lê com o que vive no “mundo real”. É aí que passamos para a leitura alegórica, vendo toda a Guerra do Anel como uma representação da Guerra Mundial, baseando-nos no fato de que Tolkien utilizara a experiência de vida (uma vez que atuou na Primeira Guerra) para escrever a obra.

É neste momento que podemos retornar à aplicação do conceito de alegoria em uma interpretação da obra, e consequentemente em qual é o problema de ler O Senhor dos Anéis baseando-se na idéia de que o livro (e agora é o momento de tirar a definição de alegoria do bolso) “diz o outro”, ou seja, que através da história do Um Anel, Tolkien queria falar sobre os horrores da guerra que presenciou.

Já temos através do Prólogo supracitado e de outros detalhes dentro da obra, uma idéia de qual é a intenção de Tolkien ao nos convidar para a leitura do romance. Mas é quando o próprio autor nos fala no Prefácio que devemos ficar ainda mais atentos, uma vez que não é mais a voz do narrador-personagem do Prólogo. No prefácio, diz Tolkien:

Quanto a qualquer significado oculto ou ‘mensagem’, na intenção do autor estes não existem. O livro não é nem alegórico e nem se refere a fatos contemporâneos. Conforme a história se desenvolvia, foi criando raízes (no passado) e lançou ramos inesperados: mas seu tema principal foi definido no início pela inevitável escolha do Anel com o elo entre este livro e O Hobbit.(TOLKIEN, 2001, p.XIV-XV)

Neste ponto Tolkien já é bastante preciso sobre O Senhor dos Anéis não caracterizar-se como uma alegoria (e vale aqui lembrar a carta 140, na qual o autor afirma “minha mente não funciona alegoricamente”). Porém, o Professor continua, e dá inclusive uma visão do que seria a obra se ela fosse, de fato, uma alegoria da guerra:

Se ela houvesse inspirado ou conduzido o desenvolvimento da lenda, então certamente o Anel teria sido apreendido e usado contra Sauron; este não teria sido aniquilado, mas escravizado, e Barad-dûr não teria sido destruída, mas ocupada. Saruman, não conseguindo se apoderar do Anel, teria em meio à confusão e às traições da época encontrado em Mordor as conexões perdidas em suas próprias pesquisas sobre a Tradição do Anel, e logo teria feito um Grande Anel para si próprio, com o qual poderia desafiar o pretenso soberano da Terra-média. Nesse conflito, ambos os lados teriam considerado os hobbits com ódio e desprezo: estes não teriam sobrevivido por muito tempo, nem mesmo como escravos”. (TOLKIEN, 2001,p.XV)

Aqui os fãs de uma boa discussão poderão argumentar que o autor não está livre de um questionamento, tal como sua obra. Em partes, sim. Inclusive é no próprio prefácio que Tolkien explica: “acho que muitos confundem ‘aplicabilidade’ com ‘alegoria’; mas a primeira reside na liberdade do leitor, e a segunda na dominação proposital do autor”. (TOLKIEN, 2001, p.XV)

Ou seja, o leitor de O Senhor dos Anéis, pode ver na obra qualquer fato que sua própria experiência de mundo permite, não necessariamente só a Grande Guerra. Pode dizer que a história de Frodo ilustra o Capitalismo, ou ainda, ver em Sauron qualquer figura que represente a idéia que ele tem de “mal”, e assim segue. Como leitores, é natural incluirmos nosso conhecimento de mundo no texto que estamos lendo, e é por causa disso que nunca uma obra é igual para duas pessoas. Ela depende desta outra interpretação que fazemos, somando o que conhecemos com o que o autor está dizendo.

A questão principal é que, embora não seja incorreta, esta é uma leitura pessoal. E, como dito antes, nunca o romance que o leitor A leu é igual ao do leitor B, portanto não podemos colocar estas interpretações como “verdades” ou “fatos”, especialmente se considerarmos que a intenção por trás da criação da obra já foi anunciada pelo autor.

Outro problema é que ao usar experiências pessoais estamos estabelecendo uma relação com fatos contemporâneos, fugindo assim da proposta de Tolkien que, ironicamente, era muito mais simples do que esse jogo de quadros comparativos. Ao escrever O Senhor dos Anéis ele desejava apenas que o leitor se “desligasse” temporariamente do mundo real, permitindo-se sonhar com o mundo criado por ele, em todas as suas cores.

REFERÊNCIAS:

ECO, U. Leitura do texto literário. Lector in fabula: a cooperação
interpretativa nos textos literários. Lisboa: Editorial Proença, 1985.

ECO, U. Seis Passeios pelos Bosques da Ficção. São Paulo: Companhia das
Letras, 2006.

MOISÉS, M. Dicionário
de Termos Literários
. São Paulo: Cultrix,1991

TOLKIEN, J. R. R. O
Senhor dos Anéis.
São Paulo: Martins Fontes, 2001.

(Texto originalmente publicado no site Valinor, em abril de 2007)

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