Sandman: Prelúdios e Noturnos

Já são mais de 20 anos desde sua publicação, e a história já é até bem conhecida pelos fãs de quadrinhos. O britânico Neil Gaiman reformulou uma personagem já existente da DC Comics e criou através de Sandman o que junto com outras HQs criou o conceito de quadrinhos para adultos. Mas mais do que isso, Gaiman apresenta uma estrutura que fugia bastante do que se via em títulos de super-heróis como X-Men, Batman, e afins: ele elaborou uma história com começo e fim. Ao todo são 75 revistas,  que aqui no Brasil foram agrupadas em 10 arcos de histórias que comentaremos todo domingo aqui no Meia Palavra, seguindo a ordem de publicação.

O primeiro é Prelúdios e Noturnos, que trazia a difícil tarefa de apresentar Morpheus, o Lorde dos Sonhos, e ao mesmo tempo encantar o leitor. Para tal, começamos com o rapto de Morpheus, realizado por Roderick Burgess, que na realidade queria capturar a Morte. Sonho passa anos preso até finalmente escapar e iniciar uma busca por seus objetos de poder perdidos: a algibeira, o elmo e um rubi.

E se com esse primeiro arco Gaiman precisava seduzir seus leitores, ele não poupou esforços para tal. História atrás de história somos presenteados com um texto brilhante, recheado de referências culturais e personagens marcantes. Começamos com O Sonho dos Justos (Sandman  #1), que narra o aprisionamento e fuga de Morpheus. Alguns elementos que aparecerão em arcos futuros já são plantados nessa primeira história, como a gravidez de Unity Kinkaid. Traz também um dos melhores conceitos de horror, o eterno despertar – o que dá uma mostra de que se Sandman chega como um “herói”, não é o bonzinho típico que víamos até então.

Anfitriões Imperfeitos (Sandman #2) é talvez a mais fraca das histórias nesse arco, mostrando Sonho retornando ao seu reino (o Sonhar), ficando aos cuidados de Caim e Abel enquanto se recupera para então descobrir o paradeiro de seus objetos de poder. Seguindo esse título temos o excelente Dream a Little Dream of Me (Sandman #3) no qual para recuperar a algibeira ele conta com a ajuda de John Constantine, outro personagem bastante famoso da Vertigo.

Aqui vale a pena uma pausa para prestar atenção em algo que Gaiman faz bastante nas revistas seguintes, colocar trechos de músicas em falas de personagens, ou tocando ao fundo no lugar em que essas se encontram. Dream a Little Dream of Me vem cheia dessas referências, a começar pelo título, por exemplo.

Recuperada a algibeira, Sonho sai em busca de seu elmo, que está no Inferno. É essa ida ao submundo que encontramos em Uma Esperança no Inferno (Sandman #4), que traz dois dos melhores momentos de todos os 75 volumes de Sandman: o jogo de palavras contra Choronzon e a fala de Morpheus ao deixar o inferno. Se o leitor ainda tinha dúvidas se valia a pena continuar lendo a série, é com essa que ele é definitivamente conquistado.

Sobre finalmente o rubi, que mostra-se bem mais difícil de reconquistar: os próximos números desse arco serão dedicados principalmente a ele. São também as histórias mais violentas de toda a série, trazendo o insano John Dee em Passageiros (Sandman #5) que faz parte do universo DC, fugitivo do Asilo Arkham que enlouqueceu justamente por causa do rubi de Sonho. Dee com a jóia em mãos, temos o que é uma das histórias mais chocantes que já li em quadrinhos, 24 Horas (Sandman #6).

Nela, vemos as tais 24 horas passando em uma lanchonete. Dee aos poucos faz com que as pessoas na lanchonete comecem a enlouquecer, o que gera momentos como uma mulher martelando um prego na mão de um homem, ou outra que enfia agulha nos olhos. Se alguém ainda acha que HQ é coisa só para criança, definitivamente precisa ler esse número de Sandman.

Em Som e Fúria (Sandman #7) temos o confronto final de Sonho e John Dee. Talvez até por conta do duelo é a que mais lembra as histórias de heróis, mas que o leitor não se iluda: é o máximo que verá dessas estruturas. Recuperando o último objeto, chegamos ao encontro de Sonho com sua irmã Morte em O Som de Suas Asas (Sandman #8), uma das histórias que recomendo para quem busca uma leitura avulsa para ter uma amostra do que é Sandman. Funciona como epílogo desse arco, e vale destacar a bronca que Morte dá no irmão, que é simplesmente impagável, um dos melhores momentos da série.

Para quem lê em inglês, uma boa dica é ter o link The Annotated Sandman nos favoritos. Ele traz comentários e explicações sobre as referências feitas tanto no texto quanto na arte, revista por revista. Aqui você pode conferir as anotações sobre Prelúdios e Noturnos. Tem tanta coisa para se descobrir que reler Sandman é sempre um prazer. E não percam, domingo que vem falarei do próximo arco, A Casa de Bonecas.

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10 thoughts on “Sandman: Prelúdios e Noturnos

  1. Muitos anos atrás eu estava em uma banca de jornais e revistas (só isso já demonstra quanto tempo faz, quando esses locais ainda eram muito frequentados pois as pessoas ainda compravam muito revistas, rs), e comprei uma edição do Sandman, pra conhecer. Só que não reparei que não se tratava de uma estória, mas sim de uma coletânea de capase ilustrações, trabalhos feitos pelo Dave McKean. Mesmo assim, acredito que é uma boa introdução ao universo do personagem, mesmo que superficial.

  2. Opa! Vou acompanhar fielmente. 🙂
    Vai cair como uma luva a série de comentários sobre as histórias. Estou lendo as revistas. Atualmente, em Entes Queridos. Vai ser ótimo relembrar.
    Sobre o jogo com Choronzon, inesquecível, – “Eu sou a esperança” – até pra quem têm uma péssima memória pra essas coisas, como eu.
    Ah, O som de suas asas é uma das histórias mais incríveis. Têm o lance de sermos apresentados a “very, very, very cool” e carismática irmã de Morpheus, a Morte.
    Como histórias avulsas pra se ler, a do Arco Espelhos Distantes também são muito boas, eu acho…

    Sobre o texto: Supercalifragilisticexpialidoso!
    Até “A casa das bonecas”… xD

  3. Pingback: Sandman: Despertar

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