O estranho mundo de Zofia e outras histórias (Kelly Link)

Desde a primeira vez que bati os olhos na capa do livro O estranho mundo de Zofia e outras histórias de Kelly Link (que ilustra esse post), pensava sempre a mesma coisa: Tim Burton. Tinha algo naquelas pernas com meia calça listrada de preto e vermelho, a rosas em tom meio vitoriano que evocavam a lembraça dos filmes meio estranhos e darks do diretor, como Eduardo Mãos de Tesoura e A Noiva Cadáver. Agora ao terminar a leitura desta coletânea de contos, chego à conclusão de que a referência não está assim tão errada.

Para quem acha que elementos fantásticos como bruxas, fantasmas e zumbis são coisa para livros de crianças, talvez devesse dar uma conferida nos contos de Kelly Link. Morte, solidão, aquela sensação de não se encaixar – está tudo ali, mesmo com a presença do sobrenatural, que aparece para dar contornos de fábulas ou contos de fadas à histórias na realidade bastante urbanas.

O tom da narrativa de Link lembra muito Neil Gaiman em Sandman, por dois motivos: primeiro, o aspecto sombrio dos contos de fadas, lendas e afins, como já citado. E segundo por causa das ‘n’ referências à cultura pop, que tornam a leitura tão divertida. Em dado momento uma personagem sugere para um povo que vive dentro de uma bolsa e adora cinema que não perca tempo com a nova trilogia de Star Wars, por exemplo. Música, cinema, tv. Está tudo ali, e reconhecer as referências torna a leitura ainda mais agradável.

O estilo de Link também é carregado de ironia, e vem cheio de interrupções nas quais o narrador para e faz algum comentário com o leitor, seja para avisá-lo do que vem a seguir, seja para dar uma outra visão sobre a história que está sendo contada. Como acontece em um dos melhores contos, Pele de gato, no qual a autora alerta: “Se estiver esperando por um final feliz nesta história, talvez seja melhor parar por aqui e ficar imaginando essas crianças, seus pais e o reencontro deles.”

Ela lida muito bem mesclando o absurdo ao normal, como em O Grande Divórcio (excelente conto!), no qual mortos podem se casar com vivos. O desfecho é assustador de uma maneira até bastante original. Falando em originalidade, há ainda o ótimo O Hortlak, que inesperadamente traz mortos-vivos para a história e trabalha com o elemento como se fosse algo absolutamente banal, o que chega até a criar um tom um pouco cômico inicialmente.

Aliás, é importante frisar que o cômico aparece aqui de forma mais sutil. A combinação dos elementos fica entre o amargo e o doce, como fica mais evidente no conto Plano de contigência contra zumbis. Mas no fim são em sua maioria boas histórias. Algumas poucas ficam ali entre o mediano para fraco (como é o caso de Animais de pedra), mas a maior parte está acima da média. Uma boa pedida para quem acha que para essa coisa de fantasia não existe idade.

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