Adoro Morrer (Tibor Fischer)

Nunca existira um livro que não contivesse fibras de outro livro.“, pensa o protagonista do conto O Devorador de Livros, um dos textos presentes na coletânea Adoro Morrer do inglês Tibor Fischer. E tanto isso é verdade, que há algo nos escritores britânicos nascidos ali pela década de 50 que apresenta quase que essa mesma “composição de fibras”. Os livros que eles leram desde quando eram jovens devem ser mais ou menos os mesmos, as músicas que ouviram, os filmes que assistiram. Enfim, suas referências ecoam em suas obras.

Digo isso porque tão logo comecei a ler o primeiro conto da coletânea (Comemos o chef) pensei na hora nos personagens meio perdedores do Nick Hornby. Aquele mesmo cinismo em se reconhecer “do lado errado” está lá, naquele mesmo tom coloquial bem próximo de uma conversa. Mas Fischer é mais ácido, muito mais ácido. E uma boa parte de seus contos tem alguns elementos que lembram filmes de Guy Ritchie (os bons, por favor!).

Por essas semelhanças que acredito na força do contexto. Lembro de uma professora que costumava dizer que se Shakespeare nascesse em outra época e em outro lugar, não teríamos textos tão brilhantes como Hamlet e Rei Lear. Prolongando o raciocínio, tem algo ali na Inglaterra da década de 50 que fez aparecer esses bardos que contam histórias de pessoas comuns como pessoas comuns de um jeito incomum.

Gostei muito dos contos, em alguns não dava para acreditar onde Fischer estava indo: se você relê o conto a partir do começo, não dá para acreditar em como ele consegue progressivamente te levar àquela conclusão. O ponto alto dos textos na minha opinião está no uso de símiles. Para explicar um único pensamento ou momento, Fischer recorre a todo um quadro comparativo, e muitas vezes consegue conquistar a simpatia do leitor porque a identificação é imediata. Por exemplo, como aparece em Gelo esta noite no coração de jovens visitantes:

Era como ser adolescente de novo e acreditar que todo mundo estava se divertindo mais do que você.

Sobre parecer quase uma conversa, só não parece completamente porque a opção do Fischer para o narrador é sempre em terceira pessoa. Mas por registras as divagações das personagens, o tom acaba sendo bastante coloquial. Nesse sentido é muito gostoso de ler, o problema é a acidez do texto, que em determinados momentos vem como um soco na boca do estômago.

Fico feliz por ter sido apresentada ao Fischer, agora estou curiosa para conhecer os romances como Um palmo abaixo, A gangue do pensamento e O colecionador de colecionadores. Como os contos pareceram até meio longos (na minha opinião alguns já até se enquadrariam como novelas), acredito que em romances ele possa ser ainda melhor, tendo “espaço livre” para desenvolver sua prosa.

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