Amuleto (Roberto Bolaño)

Um dos meus tipos preferidos de livros são aqueles que rendem mais histórias mesmo depois de fechado. E descobri com prazer que Amuleto de Roberto Bolaño é um desses. Ao “romancear” a história, mesclar personagens com pessoas reais ou ainda, transformar pessoas reais em personagens, o que temos em mãos é quase um livro-jogo, que não só nos oferece uma excelente prosa mas como também o tempo de entretenimento buscando mais informações sobre o que Bolaño nos conta.

Amuleto é o relato de Auxilio Lacouture, figura inspirada em Alcira Scaffo, uma uruguaia que ficou conhecida por ficar escondida no banheiro da Faculdade de Letras e Filosofia, quando da invasão da Universidade Autônoma Nacional do México em 1968. ((Sobre essa inspiração, há uma carta de Bolaño para Jorge Ruffinelli que talvez valha a pena ler, no site encontra-se em inglês e espanhol)) O estilo da narrativa lembra em muitos momentos o que já pude conferir em Putas Assassinas e 2666: algo entre o delírio e a realidade, aquele registro da fala de quem conta uma história perdendo a noção de tempo.

E eu poderia dizer que Auxilio é uma personagem crível por ser inspirada em alguém, mas não acho que seja só isso. Há um desafio no homem que escreve (e dá voz) para uma mulher, tanto que no momento consigo pensar em poucos nomes que se arriscaram a fazer isso e o fizeram bem, fugindo de clichês do sexo. Mas Bolaño cria uma Auxilio que quase parece ser de carne e osso, que em vários momentos lembra alguma amiga que já passou em sua vida. Auxilio parece real mesmo quando perdida em devaneios de sua história.

E tantos desses devaneios parecem obviedades, mas são ditas de formas tão belas! Como quando ainda no começo ela descreve uma tentativa de compreender o motivo pelo qual o jovem poeta Pedro Garfias parecia tão triste, e relaciona a tristeza com um vaso que ele não deixa de fitar. Em dado momento ela diz:

A gente corre perigos. Essa é a pura verdade. A gente corre riscos e é um joguete do destino até nos lugares mais inverossímeis.

Lembra de certa forma o viver perigoso de Guimarães Rosa. É simples e bonito, como outros tantos momentos. As previsões do futuro, falando de inúmeros artistas também é um dos pontos altos do livro, assim como o desfecho melancólico. Como já dito, é uma prosa excelente, daquelas que fazem o ato de ler um prazer, o que consequentemente vale por si só a leitura. Mas aí há também todas as diversas referências que Bolaño faz à arte latina, especialmente na área das letras.

Auxilio, “mãe de todos os poetas”,  circula entre pessoas como Pedro Garfias, León Felipe, Rubén Bonifaz Nuño, Lilian Serpas e Remedios Varo, pessoas que – devo admitir – não conhecia. Com isso o livro virou jogo, esse correr atrás de saber mais, de saber o que é ficção e o que é realidade. E no meio da brincadeira descubro que Arturo Belano é alter ego de Bolaño e que saberia disso se tivesse lido Os Detetives Selvagens antes, há. Fica a dica para quem ainda não leu nenhum dos dois, comece com Os Detetives Selvagens e depois vá para Amuleto, até porque pelo que eu andei pesquisando as obras andam de mãos dadas, digamos assim. ((Há em Amuleto o que dizem ser uma pista para 2666, um trecho que diz ” (…) com um cemitério em 2666, um cemitério escondido embaixo da pálpebra morta ou ainda não nascida, as aquosidades desapaixonadas de um olho que, por querer esquecer algo, acabou esquecendo tudo” ))

E assim mais uma vez Bolaño me encanta. Cada livro que eu leio vira o melhor livro que já li dele, o que não deixa de ser engraçado, porque fico com mais vontade de ler o que ainda não conheço (como é o caso de Os Detetives Selvagens agora). E dessa vez ainda ficou a vontade de saber mais desse 1968 mexicano, momento da história que tinha passado em branco para mim até então.

Leia um trecho da obra

Amuleto
Roberto Bolaño
Tradução: Eduardo Brandão
136 Páginas
Preço Sugerido: R$36,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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