Aprender Idiomas – A visão da professora

Assim que escreveu o artigo com dicas para aprender idiomas, Kika me convidou para escrever um mostrando a visão do professor sobre o assunto. Como tenho experiência apenas na área de língua inglesa, é sobre o aprendizado dessa língua que vou falar – mas acredito que muito do que escrevo aqui acabará se encaixando para outros idiomas.

A primeira coisa que sempre me perguntam é “Quando é bom começar?” – o que eu sempre respondo com um “O quanto antes”. Muitos pais temem colocar os filhos em escolas de inglês quando eles ainda são muito pequenos, acreditando que isso atrapalhará o aprendizado da língua materna. Não atrapalha. E o melhor é que a criança ainda pode “absorver” sons atípicos da língua materna, e reproduzi-los sem grandes dificuldades (se você aprendeu inglês depois dos 15 deve lembrar de como foi chato aprender o sonzinho do “TH”, por exemplo).

Mas e para aprender depois da adolescência? Todas as idades têm suas vantagens e desvantagens. Se por um lado o TH será mais complicado, por outro você já assimilou todas as regras gramaticais da língua portuguesa, e poderá utilizá-las para auxiliá-lo na compreensão das regras da língua estrangeira. Quando o professor falar em voz passiva, por exemplo, ele não terá que explicar todos os conceitos de sujeito, verbo, objeto – o aluno já terá passado por isso nas aulas de português e terá que ser apenas lembrado desse conteúdo.

Porém, o maior inimigo do adulto que quer aprender inglês é o tempo. Isso é algo que sempre converso com meus alunos mais velhos – que já tem filhos e trabalho para cuidar, mas desejam muito aprender uma segunda língua. Na lista das prioridades, o estudo fica sempre por último, e muitas vezes o adulto acaba deixando o contato com a língua estrangeira apenas para aqueles dois encontros semanais em sala de aula. Ninguém aprende uma língua estrangeira assim. Você precisa (como a Kika comentou no artigo dela) de contato com a cultura daquela língua, para absorver sons, vocabulário e estruturas.

É algo que sempre observei entre meus alunos, os que detestavam música estrangeira pareciam sempre um pouco mais atrás daqueles apaixonados por bandas que cantavam em inglês. Algumas estruturas ensinadas em níveis superiores aos deles (“I should have done this…” para inglês pré-intermediário)  já eram utilizadas por eles sem que eles sequer percebessem, por exemplo. E tudo isso baseado no mesmo conceito de quando aprendemos português: replicando a língua com a qual tínhamos contato. Não precisamos ir para a escola para aprender a falar português, nós fomos para a escola para dominar a variante padrão.

Assim, para quem está sempre ouvindo músicas, lendo livros, assistindo séries e filmes, enfim, tendo contato com a língua estrangeira, a ida para o curso de idiomas é quase como essa ida para a escola, para dominar a variante padrão. E voltamos então para a importância de tentar colocar o contato com o inglês um pouco acima na lista de prioridades, de realmente se comprometer. É o tipo de decisão que acaba com aquelas idas e vindas de curso: se matricula, começa, sente que “não está levando à sério”, desiste, anos depois se matricula, tem que recomeçar do zero, etc.

Então essa é a dica número um para quem realmente quer aprender inglês: se comprometa. É cansativo, mas o resultado compensa muito. Eu dou aula há anos mas às vezes enquanto estou lendo um livro no original ainda me surpreendo e penso deliciada “Puxa, que coisa mais legal, é uma outra língua e estou lendo aqui como se fosse a minha.” É como quando você sai para caminhar, tropeça no meio do caminho, cansa, mas quando chega ao seu destino percebe como valeu a pena.

Mas tenho aqui mais algumas dicas que sempre dou para meus alunos. É lógico que sem o comprometimento elas não valem nada. E aqui falo não como professora, mas como alguém que um dia já foi aluna.

1. Fale, mas FALE MUITO.

Outro problema de ser adulto e aprender uma língua estrangeira é que temos vergonha de errar, coisa que uma criança não tem. A criança fala “Eu truxe”, e está tudo bem. Para o adulto, um mero “I bringed” vai virar o fim do mundo – “Oh, como pude errar na frente de tanta gente?”. Bom, você erra diariamente o português e não se mata por isso, até porque você consegue passar a mensagem. Na língua estrangeira é a mesma coisa. Lembra o que falei sobre variante padrão? Pois então. É o que você está fazendo no curso, aprendendo a dominar essa variante. Se você já dominasse, não precisaria estar lá.

E qual a melhor forma de dominar? Falando. Falando sem medo, simplesmente colocando as palavras para fora. Ao exercitar bastante a fala você acaba deixando de lado aquele “vício” de traduzir o que está pensando. O que acontece é mais ou menos assim: você ganha várias ferramentas, que ficam todas bagunçadas quando você não as utiliza. Se está sempre usando, elas ficam organizadinhas e você sabe exatamente onde elas estão. Então fale, FALE MUITO.

2. Lembre que você está aprendendo

Ainda relacionado com o pavor que o adulto tem de errar, temos um outro problema. Diferente de quando você era criança e estava aprendendo sua língua materna, seus pensamentos são bem mais elaborados do que naquela época. Você não quer mais dizer que “Ivo viu a uva”, você quer falar sobre o que mais gosta, o que faz, o que fará. Só que aí temos esse descompasso entre pensamentos complexos e estruturas simples, e o adulto entra em um processo de achar que “Não estou aprendendo nada, nunca vou falar essa língua!” e bem, acaba desistindo.

Então, lembre que você está aprendendo e tenha paciência. Não espere discutir os efeitos da globalização para o norte do Alasca como faria em português, haverá tropeços, gagueiras e alguma falta de vocabulário, que durante a dinâmica de sala de aula será melhorada ao ponto de em um belo dia você conseguir falar sobre isso da maneira que gostaria. Mas repetindo: tenha paciência.

3. Pense em inglês

Na minha opinião uma das melhores formas de praticar. Melhor do que isso, só se você falasse sozinho em inglês – mas tá aí algo que não pegaria muito bem para as pessoas perto de você. Então pense em inglês. Enquanto estiver andando pela rua vá fazendo observações sobre o que está vendo, pense em coisas que tem que fazer, resgate lembranças… É o tipo de coisa que ajuda muito a “ligar a tecla sap”, evitando o supracitado processo de tradução na hora da fala.

4. Leia bastante

Não acredito que esse tópico seja um problema para os frequentadores do Meia Palavra, mas se você caiu aqui por acaso e não suporta ler, má notícia: ler é parte importantíssima no processo de aquisição de uma segunda língua. Ao ler, algumas estruturas e grafia de palavras ficam cristalizadas na sua memória, de modo que você tem aquela típica sensação de que “isso aqui está errado” que já acontece na língua materna quando por exemplo alguém escreve “Meu corasão bate”.

Você não precisa absorver tudo só de seu professor ou de livros didáticos. Outros textos escritos em língua estrangeira estão aí para ajudar nisso também. E não precisa ler Ulisses do James Joyce, não. Se você curte cinema, que tal começar a ler resenhas dos filmes que você quer assistir? Ou ainda, se você gosta de cozinhar, por que não ler receitas na língua que está estudando? Quando você menos perceber, algumas expressões já serão parte do seu vocabulário e ler esses textos ficará cada dia mais fácil.

5. Menos tradução

Se você está no nível básico, tente se acostumar desde o início a fazer relações, e não tradução. Ao invés de traduzir Who >> Quem, pense em uma palavra relacionada à pessoa, por exemplo. Isso ajudará principalmente quando você chegar em momentos que não temos similares diretos na nossa língua, seja de palavra ou de estrutura gramatical. Quando chegamos no Present Perfect, por exemplo, se o aluno tentar traduzir ao pé da letra ele perderá o sentido de passado que esse tempo verbal também carrega.

O excesso de tradução também pode prejudicar o prazer da leitura, como quando você pega um livro e corre para o dicionário para traduzir palavra por palavra o que está lendo. Com isso a leitura é interrompida diversas vezes, e o leitor nunca pega o “fio da meada”.

6. Aprenda fonética

Aqui vou discordar um pouco da Kika e dizer que acho importante aprender os símbolos, sim. Não decorá-los, é óbvio, mas saber como funcionam. O aluno não precisa saber de cor porque todo (bom) dicionário tem já nas primeiras páginas a lista dos símbolos com palavras que apresentam esses sons (por exemplo, æ como em cat). Aprender a ler esses símbolos auxilia muito para aquele momento em que você não tem alguém por perto para te ensinar como se pronuncia uma palavra. Seu único trabalho é consultar no dicionário a transcrição fonética, vendo qual é a sílaba tônica e como os sons são lidos e pronto.

7. Aprenda que tipo de aluno você é

Temos basicamente três tipos de aluno: visual, auditivo e cinestésico. O primeiro aprende mais facilmente através de imagens (diagramas, linhas do tempo, ilustrações variadas), o segundo através de sons e o terceiro relacionando com sensações táteis e gestos). Aprender que tipo de aluno você é ajuda na hora de estudar, inclusive pedindo auxílio para o professor, caso ele não esteja planejando a aula incluindo elementos diferenciados.

Como exemplo pessoal, eu sou extremamente visual e sou viciada em linhas do tempo (e acabo usando sempre em minhas aulas). É como se eu precisasse situar a ação em um determinado ponto para compreender aquele tempo verbal.

8. Aprenda qual o método mais adequado para você

Não adianta chegar na escola e reclamar “Aqui não tem conversaaaation!” se o método aplicado não é o comunicativo. Quando for se matricular, pergunte qual é a metodologia da escola, e veja se é o que você procura. Algumas escolas apresentam metodologia unicamente audiolingual (aquela que você aprende estruturas e fica repetindo), por exemplo. Se você vai só repetir estruturas, obviamente não fará “conversation”.

E aqui um comentário de experiência própria: não adianta pedir “conversation” e não falar nada na hora que o professor inicia uma. Se só o professor falar, é exercício de listening (audição) e não de conversation (conversação). Então dê sua opinião sobre o que foi perguntado, fale, interaja.

9. Repetição, Surpresa e Prazer

No campo dos estudos neurolinguísticos essas três palavras são importantíssimas na hora da aquisição da segunda língua. Sim, é por isso que quase todos os métodos envolvem repetição de palavras e estruturas – é um modo de fazer “atalhos” no seu cérebro e facilitar na hora que você precisar acessar a ferramenta.

Mas para esses estudos, o elemento surpresa também ajuda a fixar palavras e estruturas. Pode ser desde um “noooossa, não sabia que era isso!” até um modo diferente de apresentar um conteúdo, mas aí já depende do professor, certo? Por isso se o professor estiver caindo no caminho da mesmice, sugira que ele faça alguma variação, traga algo diferente. Sugestões são sempre bem-vindas, acredite.

E sobre o prazer, pensem que da mesma forma que “traumas” criam bloqueios, o prazer acaba servindo como “desbloqueador”. Tente transformar a “lição de casa” em algo divertido para você, associando a língua a algo bom, e não “aquelas horas chatas do meu dia”.

10. Faça um bom investimento

Conheço muitas pessoas que ao decidirem fazer inglês, optam pela escola mais barata – sem se preocupar com metodologia, qualidade do material, preparação dos professores e afins. Pessoalmente acredito que esse é um investimento, e merece um pouco mais de atenção além de sair pela facilidade de “gastar menos”.

Se você gasta menos em uma escola ruim, a tendência é que você não aprenda nada e precise pagar mais nos anos seguintes em uma outra escola. Ou ainda, que acabe desistindo, e mais uma vez precise pagar mais. Nesse caso, procure escolas recomendadas por amigos, ou que tenham um bom histórico no campo do ensino de línguas estrangeiras. Pode até acontecer de a mais barata ser uma boa opção, então não é só uma questão de valor, mas de saber pesquisar (assim como você faz uma boa pesquisa antes de comprar uma casa, não?).

***

Ufa, quanta coisa! Espero ter ajudado de alguma forma. E lembrem, do ponto de vista da linguística, não existe língua mais difícil ou complexa, elas são apenas diferentes. Então não comece criando barreiras, pense que com comprometimento, você pode aprender qualquer coisa que quiser. ;D

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4 thoughts on “Aprender Idiomas – A visão da professora

  1. Oi, Anica!

    Excelente artigo, achei bastante completo e sem dúvida muito útil pra quem está pensando em aprender um novo idioma ou retomar um abandonado. =]

    Eu adicionaria ainda, no número 2 (Lembre que você está aprendendo) um ponto que foi fonte de frustração minha como aluna até pouquíssimo tempo atrás, e que eu custei a entender. Basicamente, independente do seu nível de proficiência, não adianta querer discutir fluentemente sobre os efeitos da globalização para o norte do Alasca em inglês (ou em qualquer outra língua que você estreja aprendendo) se isso não é algo que você normalmente faria em português. As dificuldades de se ter que fazer isso em uma segunda língua se nem na primeira você está acostumado são imensas, então acho válido ter noção desse limite pra não criar expectativas em relação à segunda língua que vão além do que você esperaria de você mesmo na sua língua mãe.

    Parece óbvio escrito assim, mas eu mesma, como aluna, demorei anos pra conseguir aceitar isso e parar de me cobrar, e foi preciso um professor me dizer isso pra ficha finalmente cair.

  2. Oi Anica!

    Muito bom seu artigo.

    Me deu até um pouco de vergonha por nunca ter feito um curso para aprender uma outra língua. No segundo grau tive só inglês instrumental e odiava, odiava as aulas obrigatórias, a professora um pouco da turma, acabei que tomei birra da língua.
    Hoje eu compreendo bastante, e até consigo pensar um pouco em inglês, mas por causa das músicas, filmes e séries.
    Um curso seria interessante para, como vc disse, absorver os sons (minha pronuncia é um lixo) e praticar mais estruturas.

    Mas ainda tenho trava de procurar um professor…. Infelizmente. O “aprenda qual o método adequado para você” não inclui um professor regular em sala de aula.

    Foi muito útil o texto, para mexer com os neurônios aqui e voltar a pensar em aprender uma língua direito e quem sabe partir para outras.

    Abração!

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