2666: A parte de Amalfitano

Continuando a leitura de 2666 de Roberto Bolaño, terminei ontem à noite a segunda parte (A parte de Amalfitano). Para situar quem acabou de chegar, estou seguindo na direção contrária do que foi adotado pela família do autor (publicação do que seriam cinco livros em um só) e fazendo os comentários aos poucos, sempre antes de iniciar a parte seguinte. Minhas opiniões sobre a primeira parte (A parte dos críticos) você pode encontrar aqui.

Eu sei que em teoria estou lendo o livro tal e qual a qualquer um – até porque mal estou interrompendo a leitura. Por causa disso acho que as sensações que tive sobre A parte de Amalfitano não serão tão diferentes, talvez só os achismos sobre o que as outras três partes podem trazer, o que será até divertido de confirmar depois. A verdade é que se não fosse a já familiar dificuldade para ler o catatau na cama, fiquei em alguns momentos com a impressão que tratava-se de um outro livro.A parte de Amalfitano é extremamente melancólica e densa, muito densa. Ontem quando concluí a leitura fiquei morrendo de vontade de voltar para o começo e reler os trechos em que Amalfitano aparece para os críticos, porque o que ele falava ali ganharia toda uma outra conotação depois de saber o que ele vivera antes daquele encontro, especialmente aquele trecho no qual comenta sobre a sombra se separando do escritor que trabalha para o Estado. A narrativa trata basicamente dos caminhos que o levaram a viver em Santa Teresa (cidade onde encontrará os críticos), começando do momento que sua esposa Lola o abandona para viajar em busca de um poeta.

Quando falo que a segunda parte é diferente, é porque realmente distoa do que foi visto antes, tendo como único elo três elementos que se repetem d’A parte dos críticos: Amalfitano, o livro de Dieste pendurado no varal e os assassinatos que estão acontecendo em Santa Teresa.  Mesmo o estilo é diferente, tendendo muito mais para o fluxo de consciência do que para um discurso direto, o que funciona muito bem se considerar que um dos temas recorrentes dessa parte é a loucura.

A loucura do poeta que Lola persegue, depois a loucura de Lola e então o próprio Amalfitano questionando se está ou não louco. A rapidez do estilo adotado por Bolaño para registrar diálogos e pensamentos nessa segunda parte acabam justamente criando aquele redemoinho que tiram a segurança da personagem (e óbvio, do leitor) sobre o que é real, sobre o que é certo. E no final das contas, acredito eu, pesam bastante para o plot dos crimes, mas aqui provavelmente também pela união de alguns elementos que são colocados na primeira parte.

Sobre isso, a ideia que as duas partes dão é que Bolaño brinca um pouco com as exepectativas do leitor. Sempre retomando aquela ideia de que o ato de ler carrega junto o de prever, os elementos que ele oferece na primeira parte apontam para um grande clímax que não acontece. E agora a fórmula se repete: quando parece que tudo tende a levar a uma conclusão, ele segue uma outra direção. Da minha parte acho um exercício ótimo como leitora (e bem, da parte dele como escritor), mas tenho a sensação que no fim da segunda parte ele pode perder o leitor que busca apenas um enredo com  estrutura básica de começo meio e fim, digamos assim.

Isso para não falar da questão da melancolia, que comentei inicialmente. Não são só as ações (ou em alguns momentos a falta delas) de Amalfitano que constroem esse tom. As personagens ao seu redor, desde a filha até um possível novo interesse romântico, mostram a aridez de Amalfitano, como ele simplesmente não sente. Aridez como a de Santa Teresa, que cresce ainda mais na história e se revela triste tal como o protagonista. Eu sei que isso varia muito de leitor para leitor, mas para quem não suporta o calor como eu, dá quase para entender porque Amalfitano fica daquele jeito nesse lugar.

Concluindo, a leitura continua sendo uma ótima experiência – e é experiência mesmo, extrapola um pouco aquela linha da leitura por puro entretenimento. E a verdade é que agora mal posso esperar para ver qual a próxima expectativa que será frustrada na terceira parte (talvez o fato de que não será frustrada?). E sim, eu continuo evitando ler o máximo possível o que saiu por aí sobre o livro, mas acabei lendo o post no blog do Tony Bellotto e aproveito para recomendar aqui: Testamento geométrico. Em tempo, se você ainda não conferiu, corre lá no blog do Meia Palavra para ler o 10 Perguntas e Meia para Tony Bellotto. Está bem legal!

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3 thoughts on “2666: A parte de Amalfitano

  1. Anica, conclui hoje a parte de Amalfitano depois de reler a parte dos críticos não só porque esta me encanta mas porque a li há uns dois meses atrás e não queria recomeçar o livro com vagas lembranças.

    Confesso que também achei as duas partes bem destoantes também, enquanto a dos críticos nos enleva pela leveza e pelo construção acessível do texto a do Amalfitano nos chacoalha, tira-nos do norte, pela densidade da narrativa, pelos simbolismos e pelo fluxo de consciência. É como se Bolaño tivesse escrito esta parte logo depois de ter batido um papo com Clarice Lispector.

    Mal posso esperar pelo restante!

    Abraço,

  2. Coemecei “A parte de Fate” hoje. Achei na verdade “A parte de Almafitano” mais fácil que a d’os Críticos. Tive dificuldade na d’os críticos, reli trechos e trechos, na de Almafitano já não tive que voltar muito, achei mais leve.

    O livro é fabuloso mesmo.

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