2666: A parte dos críticos

A tradução de Eduardo Brandão para 2666 do escritor chileno Roberto Bolaño é, sem dúvida, um dos maiores lançamentos literários aqui no Brasil em 2010. E por maiores não falo apenas da importância do acesso ao texto em português, mas também ao tamanho do catatau publicado pela Companhia das Letras: 856 páginas, adotando a decisão da família de Bolaño em não dividir 2666 em cinco partes como sugerido pelo escritor para facilitar o sustento dos filhos quando morresse. A obra foi publicada mais de um ano após sua morte, mas, como garante Ignacio Echevarría em nota à primeira edição, “o romance se aproxima muito do objetivo que ele traçou”.

E eu sei que para muitos fãs de Bolaño (e de 2666) eu provavelmente estarei cometendo uma heresia, mas decidi seguir o caminho oposto da família, e comentar o livro por partes, publicando os comentários  sempre antes de iniciar a leitura da parte seguinte. E para começar, vamos de A parte dos críticos, primeira parte de 2666. Acredito ser importante destacar aqui que estou tentando ler o mínimo possível sobre o livro para não estragar a experiência, e que muito do que falar agora eu posso contrariar em textos futuros. Mas bem, qual é a graça de se ler uma obra sem participar da brincadeira da adivinhação do que está por vir?

A parte dos críticos

Eu tenho uma curiosidade enorme de conhecer a obra de Bolaño porque muitas pessoas próximas que acredito terem bom gosto literário simplesmente adoram o que ele publicou. Mas eu sou teimosa e encasquetei que meu primeiro Bolaño seria o tão-falado-2666, que demorou um pouco para chegar no Brasil porque Brandão levou mais de um ano para traduzir a obra. ((para saber mais sobre a tradução, vale a pena conferir uma entrevista com Brandão para a Livraria da Folha)) E então finalmente tive a oportunidade de ler o livro, com as expectativas lá no alto, é óbvio.

E Bolaño já começa impondo um ritmo de narrativa mais lento, fazendo com que o leitor mais afoito volte a acostumar os olhos a uma leitura mais cuidadosa, detalhada. O autor não tem pressa e vai desenvolvendo as personagens e os eventos que as conectam de forma cuidadosa: não são apenas suas ações que os definem, são seus sonhos, o que se pensou mas não foi dito, o modo como se relacionam com o que ou quem gostam.

E por causa disso, quanto menos se espera, você já está completamente amarrado pelo quarteto de críticos apaixonados pela obra do recluso escritor alemão Benno von Archimboldi. Espinoza, Pelletier, Norton e Morini se encontram nos congressos de estudos literários que frequentam, e desenvolvem um grande laço de amizade justamente por causa do interesse em comum – Archimboldi – e, mais precisamente, por onde andará Archimboldi.

A relação entre eles se estreita, e apesar de obviamente as cutucadas que Bolaño dá na crítica literária ficarem mais ao gosto de quem é da área, ainda assim a amizade independe desse aspecto, e mesmo quem não é muito familiar aos estudos literários vai acabar se encantando com as personagens, até mesmo ao se enxergar na situação de apaixonado que eles se encontram. Isso não precisa ser só entre leitor e escritor, aparece de tantas formas: o músico e o sujeito que o escuta, o cineasta e quem o assiste. É a relação com a arte.

E nisso, um dos trechos mais memoráveis é o dos críticos conversando com a dona da editora que publicou Archimboldi pela primera vez, a senhora Bubis. O comentário da mulher sobre o gosto que tinha pela obra de Grosz e da diferente reação que ela tinha para seus quadros da que seu amigo tinha é genial. A questão da diferença entre o gostar e o entender, e de como uma obra pode refletir de maneiras diferentes de acordo com quem a vê.

É o que acaba nos levando ao trecho com o pintor Edwin Johns, que decepou a própria mão para fazer o que seria sua obra-prima.  O artista causa reações diferentes nas personagens, sendo a mais forte certamente sobre Morini, o único que lhe pergunta a razão da mutilação. A história é retomada na conclusão da primeira parte, servindo como o elemento que faltava para definir a relação dos quatro críticos.

Como comentei, evitei ao máximo possível saber sobre 2666 antes de completar a leitura, mas é óbvio que do básico do enredo é impossível fugir, e sei que uma pequena história contada para os críticos enquanto seguiam uma pista de Archimboldi no México, de assassinatos de centenas de mulheres, vai acabar se desdobrando nas partes que virão. Mas no momento o que temos é isso: esse primeiro quadro com a relação entre os quatro críticos e a relação desses com Benno von Archimboldi.

Eu adorei, especialmente pelo modo como Bolaño conduz a narrativa. Um “truque” legal utilizado por ele é mudar a forma de escrever de acordo com o que está representando. Por exemplo, um sujeito está contando uma história, a fala vem com marcas de oralidade – aquelas pequenas idas e vindas de quando relatamos algo. A parte do email de Norton é simplesmente fantástica, com ações de Pelletier e Espinoza entrecortadas por trechos do que ela escreveu para eles. Ou ainda, Amalfitano falando sobre os artistas e o Estado na América Latina, fala longa e cheia de metáforas que é cortada por um “Não entendi nada do que você disse” de Norton.

O texto é quase como um labirinto, que em alguns momentos você continua seguindo e com a certeza de que está no caminho certo, em outros anda, anda e anda para então dar de cara com uma parede indicando que é hora de recomeçar. Mas não pensem que isso faz de 2666 um texto difícil. Muito pelo contrário: Bolaño é acima de tudo um contador de histórias, e a primeira parte fluiu muito bem.

Para quem ficou curioso, no site da Companhia das Letras está disponível um trecho do livro em pdf. Vale a pena conferir, mas se as outras quatro partes do livro forem tão boas (ou melhores) do que a primeira, vale a pena é ir atrás do livro mesmo.  Se já leu e quer saber mais sobre outras obras do Bolaño, não deixe de conferir as resenhas do Pips para Noturno do Chile, Os Detetives Selvagens e Estrela Distante já publicadas aqui no blog do Meia Palavra. Enquanto isso, aguardo dicas  das melhores posições para ler 2666 na cama, há!

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6 thoughts on “2666: A parte dos críticos

  1. Bá, se já tinha vontade de ler Bolaño, agora então, ainda mais livros longos, que cotumo gostar mais.

  2. Olá, Anica!
    Como você também não conhecia a obra do autor mas fiquei com a ideia fixa de que a primeira obra que leria seria o volumoso 2666.
    Terminei a primeira parte e confesso que estou encatado pela forma como Bolaño nos apresenta seus personagens e suas angústias, incertezas, vontades e aprazeres.
    O discurso de Amalfitano sobre o mercado cultural existente na América Latina voltado, basicamente, para a televisão e a qual, infelizmente, raramente apresenta um conteúdo de qualidade é genial!
    Sigo lendo o livro e comentando por aqui!

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