Febre de Bola (Nick Hornby)

E já que a Copa do Mundo começa oficialmente hoje, nada melhor do que entrar no clima também no campo de literatura. O gostoso de ler textos relacionados ao futebol é que normalmente eles se apresentam como crônicas, mantendo aquele tom de memória e humor que descem tão bem mesmo que você não tenha compartilhado o evento descrito. Um bom exemplo disso é Febre de Bola, de Nick Hornby. Primeiro romance do escritor inglês, publicado em 1992 e contando suas experiências com uma de suas maiores paixões, o Arsenal.  E mesmo assim, você não precisa torcer para o Arsenal nem ser fã de futebol desde 1970 para se encantar com essa história.

Isso porque o livro divide-se em capítulos que descrevem o que vivia a personagem durante momentos marcantes para o time (e algumas vezes não só o Arsenal, é bom destacar). Segue uma ordem cronológica e embora seja “costurado” de modo a ser um romance, os capítulos poderiam muito bem ser dividos em crônicas – o que nos traz novamente aos pontos altos desse gênero, como por exemplo a possibilidade de estabelecer uma relação com o leitor de tal forma que soa como se você estivesse não lendo um livro, mas conversando com um amigo em uma mesa de bar.

E eu já fui fanática por futebol, mas é importante ressaltar que Febre de Bola não é para quem gosta do esporte. Porque do mesmo jeito que faz ao falar de Música em Alta Fidelidade, Nick Hornby consegue mesclar a paixão com a vida do protagonista (e vale lembrar que nesse caso é ele mesmo), estabelecendo relações algumas vezes hilárias entre situações que estava vivendo e que o time do coração estava passando. Por causa desse caráter autobiográfico do livro, ele fala de tudo, chegando em momentos ótimos como quando comenta sobre ser crítico:

A faculdade de crítica é uma coisa terrível. Quando eu tinha 11 anos não havia filmes ruins, apenas filmes que eu não queria ver, não havia comida ruim, apenas couve-de-bruxelas e repolho, e não havia livros ruins – tudo o que eu lia era ótimo. De repente, certa manhã acordei e tudo havia mudado. Como é que minha irmã não percebia que David Cassidy não estava na mesma categoria que Black Sabbath? Haveria razão no mundo para meu professor de inglês achar que A história do Sr. Polly era melhor que os Dez Negrinhos de Agatha Christie? E desse momento em diante, a satisfação tornou-se algo muito mais fugidio.

E lógico que tem um momento especial para os brasileiros, logo no começo de Febre de Bola quando esse inglês que estava começando a se apaixonar pelo futebol acompanha a Copa de 1970, e se admira com nossa seleção. Nós sempre fomos extremamente ufanistas sobre nossos talentos, mas ler o texto de um estrangeiro que tem memória tão nítida sobre aquele time, ao ponto de citar os nomes e momentos marcantes do jogo e colocar aquela participação tupiniquim entre momentos que mudaram o futebol, isso há de agradar até o brasileiro mais ranzinza em tempos de Copa do Mundo.

O tom é informal do começo ao fim, soa realmente como um amigo dividindo memórias, mas aquele amigo que sabe contar histórias de um jeito gostoso, que mesmo que estivesse falando sobre chucrute ainda assim seria interessante. Mistura inteligência e senso de humor de forma afiadíssima, como se superaria apenas em Alta Fidelidade, publicado três anos depois.

O livro ganhou duas adaptações para o cinema, uma inglesa que conta com Colin Firth (de 1997) e uma americana com Drew Barrymore (de 2005), que esculhamba um pouco as coisas ao mudar o futebol para o baseball (essas mudanças são completamente desnecessárias, na minha opinião). Infelizmente ele está esgotado, então você precisará recorrer às bibliotecas (que foi como consegui ler pela primeira vez) ou aos sebos, como o Estante Virtual. Mas vale a pena a garimpada, especialmente se você ficou meio decepcionado com o lançamento mais recente do autor, Juliet, Nua e Crua.

E se quiser uma leitura mais rápida para entrar no clima da Copa, uma sugestão: procure pela crônica Brasil x Argentina de Mario de Andrade, publicado na coletânea Os Filhos da Candinha. O texto é de 1930, mas poderia ser de qualquer ano, é realmente muito bom.

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