A loja dos suicidas (Jean Teulé)

Chegou aqui no Brasil pela Ediouro no começo do ano a tradução do livro A loja dos suicidas (Le magasin des suicides), do francês Jean Teulé. Na primeira vez que li uma resenha sobre o livro já fiquei curiosa, até porque ele parecia transbordar humor negro: em um futuro pós-apocalíptico a família Tuvache trabalha em uma pequena loja especializada em vender objetos para suicidas: corda, veneno e o que mais for possível imaginar, o importante é manter o nome e tradição da Loja dos Suicidas.

De primeira as personagens são tão caricatas que você pensa tratar-se de um livro infanto-juvenil. São tipos, tais como Mortícia e Gomez da família Addams. Não suportam a alegria de viver, orgulham-se de seus problemas pessoais e de saúde e apresentam uma série de valores distorcidos sobre o que é “normal”. Algo que fica evidente ao ver o orgulho da mãe ao falar da filha obesa que se odeia e do filho que sofre com enxaquecas insuportáveis. Isso torna-se ainda mais óbvio com a chegada de Alan, o caçula, que difere em tudo da família ou seja, a “ovelha branca”. É ele que diz “Obrigada, volte sempre!” para os clientes, e quer mostrar para os Tuvaches que vale a pena viver.

É óbvio que toda a trama (bem curtinha, vale a pena dizer) se baseia nesse conflito entre os Tuvache e o caçula, que aos poucos vai mudando não só os parentes, mas também a loja. E sim, tem toda aquela mensagenzinha de “vale a pena viver” (considerando o enredo eu acho que isso seria impossível de evitar), mas mesmo com ela a leitura vale a pena, por causa de alguns bons momentos de ironia e humor negro na história (como quando o filho é mandado para uma escola de kamikases em Mônaco de castigo) ou mesmo as histórias de suicídios de famosos que aparecem aqui e acolá (como o que deu origem ao nome do filho mais novo).

O estilo da prosa de certa forma lembra muito texto para teatro. Era quase possível colocar um “Sr. Tuvache: blablabla” para indicar a fala. Os parágrafos de narração lembram muito aquelas indicações para os atores expressarem de forma adequada o sentimento da personagem. Mas quanto a isso não é de se admirar, o autor Jean Teulé trabalha como roteirista, talvez tenha acabado imprimindo isso em seu estilo.

E como quase tudo que envolva uma certa dose de fantasia e humor negro, o livro parece gritar desesperadamente por Tim Burton ou mesmo Jean-Pierre Jeunet para dirigirem uma adaptação para o cinema. Em muitos momentos eu ficava imaginando as personagens e mesmo o espaço da história como uma mistura de Delicatessen e Sweeney Todd (visualmente falando, é claro).

No mais, eu sei que o livro parece meio óbvio, mas é gostoso de ler. Vale a pena para aquele momento de descanso. E olha só, para quem acha que já sabe o que vai acontecer, é bom destacar que ele tem uma solução interessante e até mesmo surpreendente para quem não quer só uma liçãozinha de moral edificante, digamos assim.

Em tempo: para evitar confusões, é bom lembrar que a tradução para o Português Europeu é “A loja dos suicídios”.

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