10 Perguntas e Meia para Reinaldo José Lopes

reinaldoReinaldo José Lopes é graduado em jornalismo, mestre e doutorando em estudos lingüísticos e literários pela USP e repórter de ciência da Folha de São Paulo. Também é um dos fundadores do maior site brasileiro sobre J.R.R. Tolkien, a Valinor, e traduziu Tree and Leaf de Tolkien – segundo ele ”uma das mais bonitas e menos conhecidas das obras de Tolkien” (download disponível na Valinor, é10  só clicar aqui).

Também é autor de Além de Darwin – Evolução: o que sabemos sobre a história e o destino da vida, publicado recentemente pela Editora Globo ((Ele prometeu ali no fórum do Meia Palavra que manda uma cópia autografada para quem quiser comprar com ele, heim?)) . Falando de ciência de um modo apaixonante e acessível até para leigos, Reinaldo traz para o leitor o melhor dos dois mundos,  a ciência e a literatura, como fica claro na entrevista que ele gentilmente concedeu para o Meia Palavra, que você confere agora.

1. Como começou o seu interesse por Tolkien?

Numa palavra, RPG. Estava eu, lindo e formoso, com 12 anos, aprendendo a jogar Gurps. (É, eu gosto da Gurps, tá?) E, em dado momento, o módulo básico dizia “No fim de O Senhor dos Anéis, Merry e Pippin já deviam ser personagens de 100 pontos”. Acendeu uma luzinha. Mas eu nunca achava o diacho do livro, seja em biblioteca, seja em livraria — e mesmo que achasse eu era tão pobretão que não teria como comprar.

Corta pro meu primeiro ano de faculdade de jornalismo. Meu veterano, o Duracell (imaginem a figura), um cara gente-fina, conta que tinha o original inglês de “O Silmarillion”, do Tolkien, o autor do SdA. Pedi emprestado, li, gamei. O resto é história.

2. Quais as maiores dificuldades que você encontrou ao traduzir Tolkien?

Primeiro, precisão vocabular. Os críticos literários imbecis não percebem o imenso cuidado do Professor na hora de escolher cada palavra, pesando na balança coisas como grau de arcaísmo, de formalidade, de etimologia etc. Para se ter uma ideia, um olhar cuidadoso sobre o texto do Tolkien revela que ele praticamente “purgou” sua obra das influências do vocabulário moderno e latinizado do inglês pós-século XVI. Isso significa que palavras como “organização” ou “argumentar” ou coisas do tipo ficam totalmente fora de lugar no texto do Tolkien, mas mesmo assim tem gente que teima em usá-las na tradução por não conseguir buscar os equivalentes vocabulares antigos no português.

Segundo, a rima aliterativa anglo-saxã, que é a forma poética usada nos poemas de Rohan e em vários outros textos do Tolkien. É linda de morrer, mas não se parece com nada da tradição poética das línguas latinas. Pra piorar, depende da aliteração nas sílabas tônicas, que pra eles caem na primeira sílaba quase sempre, mas pra nós variam demais. Até hoje não estou satisfeito totalmente com o resultado de nada que eu traduzi nessa rima.

3. Passada a febre dos filmes, ainda há interesse do público nas obras do Professor?

Do público que importa, claro que há. Qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade pro poder da mitologia vai se encantar por Tolkien, não tenho a menor dúvida.

4. Além de Tolkien, quais são seus outros escritores favoritos?

Eu gosto de muita gente de maneiras diferentes, mas Umberto Eco está lá no alto, sem dúvida. Estou descobrindo Saramago e García Márquez agora. Sempre adorei Guimarães Rosa, Neil Gaiman, Terry Pratchett e Alan Moore. E, na não-ficção, dois biólogos escritores fodíssimos: Edward O. Wilson e Richard Dawkins.

5. Que livro você mais relê? E qual a sua impressão das releituras?

Rola um empate técnico entre quatro: Silma, SdA, O nome da rosa e Baudolino. É clichezão dizer, mas cada leitura é uma pusta redescoberta. O prazer essencial é o da linguagem mesmo, como quem bebe um bom vinho (embora eu não beba, hehehe): vc percebe sacadas estilísticas, jeitos bonitos de fraseado e da estrutura narrativa, que não tinha saboreado antes, por desatenção ou pressa. E, claro, vc passa a perceber como aqueles personagens e aquelas histórias te moldaram, determinam a sua visão de mundo. É uma maneira de manter a minha identidade, mesmo.

6. É difícil falar de Ciência no Brasil?

É difícil falar de Ciência no MUNDO, gente. Não acho que o problema do Brasil seja muito maior do que o dos EUA ou da Europa. A única diferença é que proporcionalmente lá fora tem mais gente que entende o tema e se interessa por ele, mas ainda é proporcionalmente pouca gente.

Os leitores não são o maior problema. O maior problema são os gatekeepers — as chefias dos jornais, os que decidem as programações das TVs etc. São gente covarde, que nunca acha que o público vai querer saber do tema e que as pessoas só querem o que tem impacto direto na vida delas. Mentira: curiosidade humana sobre como o Universo funciona é algo que todo mundo tem. Se perdeu é porque foi massacrado.

7. Até onde você teve controle sobre a edição de seu livro, “Além de Darwin”?

Sobre o texto, controle total. Fizeram pitacos, mas a palavra final era minha. Sobre todo o resto, tive de ficar quietinho. Eu queria outra capa, por exemplo, mas acabei gostando da que saiu

8. Quais são suas dicas para quem quer escrever?

Leia, leia, leia. Gente boa, gente ruim, mas leia. Mas, acima de tudo, escreva sobre o que toca você. Meu texto melhora sensivelmente quando eu me importo de verdade com o que estou escrevendo. Esteja aberto a críticas, mas tenha discernimento pra saber quando vc não deve fazer concessões e quando está na hora de mandar os críticos praquele lugar

9. Qual texto sobre evolução escrito por você gerou mais controvérsia?

Putz, precisa escolher um? O que mais tinha na minha coluna era pancadaria Mas o top three talvez seja:

Este sobre evolução da visão

http://colunas.g1.com.br/visoesdavida/2009/06/13/um-orgao-de-altissima-imperfeicao/

Estes sobre Bíblia e evolução

http://colunas.g1.com.br/visoesdavida/2009/05/16/contradicao-em-termos/

http://colunas.g1.com.br/visoesdavida/2009/01/24/david-o-macho-demoniaco/

Este sobre Darwin e ateísmo

http://colunas.g1.com.br/visoesdavida/2009/01/17/darwin-e-os-ateus-fundamentalistas/

10. Ciência e fantasia é como água e óleo?

Não acho. O Tolkien diz isso no “On Fairy Stories”: a fantasia sem as “rédeas” da razão vira delírio de quem tomou chá de cogumelo. Quanto mais afiada a sua razão, melhor fantasia ela produz.

E, quando a gente estuda a história da ciência, percebe que muitas das grandes descobertas têm a mesma origem das grandes ideias da ficção: a faculdade humana de se perguntar “E se?…”. Einstein descobriu a relatividade ao se perguntar “E se eu tentasse alcançar um raio de luz na corrida?”

A diferença é que você testa o seu “E se?” com observações e experimentos na ciência, só isso.

Mais estranho que a ficção é… saber que, feito os centauros e Pégaso, nossas células são a fusão de duas (ou mais!) criaturas totalmente diferentes entre si.

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