Destaques de agosto no Lutar com Palavras

meiatwitterPara quem não está muito familiarizado com o Fórum Meia Palavra, nele temos um fórum especial apenas para a publicação de prosa e poesia de autoria dos usuários, chamado Lutar com Palavras. E justamente para prestigiar aqueles que compartilham conosco suas criações, a partir de junho começamos a escolher através de enquete os destaques nos subfóruns Prosa e Poesia. Além de ganhar um nick de cor diferente, o trabalho deles também é publicado aqui no blog.

Os destaques desse mês foram O Lobo Antes da Porta, de Wilson (Poesia) e Duas Teses Sobre a Doença Mental, de Luciano R.M. (Prosa). Parabéns para os dois autores, esperamos ver muito mais de vocês por aqui. Para ler os textos escolhidos como os melhores de junho pelos membros do Meia Palavra, é só continuar lendo esse post.

DESTAQUE POESIA: O lobo antes da porta (Wilson)

o lobo antes da porta

o medo antes do passo
o nó antes do laço
o rombo antes do tiro
a benção antes do pai
o ave antes da mãe
o aperto antes do pulso
o sangue antes do peito
a dor antes da chaga
o túnel antes da luz
o riso antes do fim
o suspiro antes do adeus
a sinapse antes do evento

DESTAQUE PROSA: Duas teses sobre a doença mental (Luciano R.M.)

Duas teses sobre a doença mental

Ele é jovem. Talvez tenha a minha idade, ou um pouco menos. Difícil dizer, há sangue demais cobrindo suas roupas, cobrindo seu rosto. Podia dizer que é um rapaz azarado. Mas segundo os socorristas, quem viu como foi disse que não foi acaso, foi determinação: no exato momento em que o ônibus passava, ele se jogou.
Eu limpo suas feridas, suturo o que é preciso. Exames e mais exames são necessários. Raios-X, tomografias. Muitos ossos quebrados: uma perna engessada. A outra perna- a esquerda- não pode ser salva. Talvez a minha idade, ou um pouco menos.
Não foi só ele que ficou aleijado. O motorista vai se sentir culpado, mesmo que não tenha tido culpa nenhuma. O desgraçado não só tentou se matar e falhou, estragou a vida de uma outra pessoa também. Eu não devia atendê-lo. Mas o faço, é meu dever
***
Eu acordo, e obviamente não estou no outro mundo. Isso não é o paraíso ou o inferno, é apenas um hospital. E tenho mais certeza disso quando tento me mover e meu corpo todo dói. Olho para mim e estou coberto de curativos. Uma das minhas pernas está engessada e pendurada, presa a uma espécie de roldana. A outra simplesmente não está mais.
O que fizeram com ela? Jogaram-na fora? Enterraram-na? Será que agora existe um túmulo cuja lápide diz ‘Aqui jaz a perna de K.’?
E com que direito arrancaram minha perna? Pode não ser a mais essencial, mas ainda é uma parte de mim. Sim, eu quero morrer. Mas quero morrer inteiro, e não aos pedaços.
Aliás, com que direito me salvaram? Deviam ter-me deixado entregue à minha natureza, e minha própria força ou fraqueza me salvaria ou condenaria.
Quando vê que eu acordei a enfermeira me explica que estou no hospital, que passei por algumas cirurgias. E se me lembro do acidente.
‘Não foi acidente.’ Eu digo.
***
Fui chamada para uma conversar com um rapaz que tentou suicídio. Jogou-se na frente de um ônibus. Teve sorte: perdeu uma perna, mas fora isso não sofreu nenhuma seqüela mais grave. E sobreviveu.
Quando eu chego na enfermaria ele está com um olhar perdido, e sem expressão nenhuma em seu rosto. É jovem e bonito. A idade de um de meus filhos, eu chuto.
‘Olá. Eu sou a doutora Onetti, sua psiquiatra.’
Sem resposta.
‘Gostaria de falar com você sobre o que aconteceu.’
***
Agora mandaram uma velha, uma psiquiatra conversar comigo. Eu sei como funciona: ela vai me enrolar até eu admitir que estou doente, então vai me deixar suficientemente drogado para que eu não queira mais acabar com a minha vida.
Mas eu não vou cair nesse truque, porque não estou doente. Nunca estive. A minha deliberação suicida não foi motivada pela depressão ou por delírios. É filosófico. Eu sou quase um Kírilov: o mundo é algo opressivo e, ao suicidar-me, pretendia declarar-me livre dessa opressão.
***
Ele resiste a falar comigo no princípio. Mas aos poucos venci essa resistência. Ele, no entanto, não parece depressivo. Triste, mas não depressivo. Também não tem sinais de psicose ou de transtornos de personalidade. Não sei o que fazer.
K. é um rapaz culto e bastante racional. Lamenta ter perdido a perna, lamenta ter causado danos ao motorista do ônibus. Lamenta ter sobrevivido.
Não sei o nome do que ele tem. Mas não acredito que alguém possa ser normal se não quer viver.
***
A Dra. Onetti é uma pessoa agradável quando não tenta me diagnosticar. Ela conhece seu homônimo uruguaio, Žižek e até mesmo já leu Proust. Não a deixo conduzir as conversas, eu a levo até os assuntos que me interessam.
Uma vez ela disse que tinha um filho da minha idade. Que, por isso, sabia que a vida pode ser ‘pesada’ para um jovem. Eu lhe disse que peso, leveza, nada importava- deixasse isso para os Tchecos. Eu não quero me matar por essas coisas, eu quero morrer em nome da liberdade, eu quero morrer para confirmar que vivi- quero ser Zagreus e Mersault.
***
Ele não me deixa tentar diagnosticá-lo. Ele tem um muro ao redor de si, impossível de atravessar. Eu lhe levo livros e cds, mas ainda assim ele não deixa que eu me aproxime.
Mas eu tenho um trunfo: ele quer a alta, e só eu posso dá-la.
***
Cedi, e disse para a Dra. Onetti o que ela queria ouvir. Aceitei até mesmo suas drogas. Agora ela se convenceu de que estou bem, de que não vou mais morrer. Deu-me alta.
Recusei que viessem me buscar, sou capaz de me virar com as muletas. Não tinha muitos pertences para carregar, de qualquer forma.
Antes de sair, peço à enfermeira um papel e uma caneta para deixar um bilhete de despedida para a doutora. Escrevo-o, e me encaminho para a janela.
***
Cara doutora Onetti,
Agradeço muito tudo o que fez por mim. Tentou curar-me com todas suas forças, fez que eu fosse não mais apenas um paciente, mas tornou minha questão pessoal para a senhora.
Prometo-lhe que serei eternamente e infinitamente grato. Mas não prometo manter contato, vou morrer ao sair do hospital: você não foi capaz de curar-me pois eu nunca estive doente. Desculpe por mentir, por fingir que seu tratamento funcionava- quando na verdade ele só servia para tratar a sua própria impotência.
Com carinho,
K.
***
Eu saía do hospital, quando algo cai à minha frente: o suicida que eu atendi certa vez, e que perdeu a perna. Devem ter sido uns oito ou nove andares. Com certeza não sobreviveu, agora. Que tipo de idiota se mata? Bem, não é problema meu, meu turno acabou.
Se eu correr para casa, quem sabe ainda consigo ver o final do jogo.
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