Areia nos Dentes (Antônio Xerxenesky)

Desde agosto do ano passado, quando li uma resenha da Ágata no blog do Meia Palavra comentando esse livro morro de vontade de ler. O fato do autor ter sido tão bacana e topado uma entrevista (10 perguntas e Meia de abril desse ano) aumentaram ainda mais a curiosidade. Faroeste. Com zumbis. Eu sei, eu sei. Eu me vendo fácil para esse negócio de histórias de zumbis, mas no caso de Areia nos Dentes eu fico mais do que feliz por isso. Porque é um daqueles livros que eu colocaria fácil, fácil entre um dos melhores que li esse ano. E ó, nem tem tanto zumbi assim.

A narrativa mostra um sujeito tentando recuperar a história da família ao escrever um livro sobre os tempos em que viviam em um povoado no sul dos Estados Unidos. Aos poucos o narrador vai interrompendo a narrativa, seja por um problema com o computador, seja por embriaguez. E quando você já está afoito pensando: cadê os zumbis, cadê, cadêêê?, Já era. Xerxenesky já prendeu sua atenção e você quer saber dos dois Juans. Você já consegue sentir o calor e a poeira da Mavrak, cidade dos antepassados do narrador.

E o que é mais interessante é como ele vai alinhavando a história, com muita metalinguagem e ótimas referências. Não só isso, mas vários momentos que extrapolam o que esperamos de ‘normal’ em um romance. Por exemplo, a parte de Juan correndo atrás de Samuel com o cavalo é fantástica, por causa da solução do autor para esse momento: duas colunas, uma nomeada Juan, outra Samuel. Em cada uma temos um breve parágrafo mostrando o que cada um está pensando naquele momento. Eu me arrisco a dizer que nunca tinha visto algo igual em literatura, funcionando tão bem.

O mesmo vale para outras inovações, como a chegada dos zumbis, ou mesmo o momento que um vírus ataca o computador do narrador. Daqueles livros de autor-artesão, meio versão faroeste de Budapeste, eu arrisco dizer. O livro é tão bom que você devora e depois fica com aquele arrependimento de quem deveria ter “guardado um pouco para depois”. Os zumbis? Em certo momento o narrador diz:

Meu filho, Martín. Minha esposa, Maria. Não sei por onde eles andam, se há como reavê-los. Se estão vivos ou se estão mortos. Enquanto fico nessa dúvida, não estão vivos, nem mortos. São mortos-vivos. Andando em passo arrastado pelas ruas arenosas da minha memória.

Acho que isso já deixa bastante claro: Areia nos Dentes não é um livro de zumbis.

ESSE ARTIGO FOI ORIGINALMENTE PUBLICADO NO .:HELLFIRE CLUB:. EM AGOSTO DE 2009

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