Destaques de junho no Lutar com Palavras

meiatwitterPara quem não está muito familiarizado com o Fórum Meia Palavra, nele temos um fórum especial apenas para a publicação de prosa e poesia de autoria dos usuários, chamado Lutar com Palavras. E justamente para prestigiar aqueles que compartilham conosco suas criações, a partir de junho começamos a escolher através de enquete os destaques nos subfóruns Prosa e Poesia. Além de ganhar um nick de cor diferente, o trabalho deles também é publicado aqui no blog.

Os destaques desse mês foram: Luciano R. M. (Poesia) e tivemos um empate, com Amélie e Tauil (Prosa). Parabéns para os três autores, esperamos ver muito mais de vocês por aqui. Para ler os textos escolhidos como os melhores de junho pelos membros do Meia Palavra, é só continuar lendo esse post.

DESTAQUE POESIA: Para meu filho acondroplásico (Luciano R.M.)

Para meu filho acondroplásico

Sua mãe morreu de câncer, meu filho.
Sua mãe morreu lentamente, sem dramas,
mas com intensa agonia.
Foi o que lhe respondi quando
perguntou o por que eu nunca
terminei de escrever meu
primeiro romance.
Você levou suas mãozinhas pequenas
e disformes
ao meu rosto e tocou meus olhos
com carinho e violência.
Levantei, afastando-me: estava na
hora de sua injeção: hormônios
de crescimento
de homens ainda mais mortos
que eu.

DESTAQUE PROSA: O Desfile (Amélie)

O Desfile

Meninas de véu que caminham para o fim da avenida. Marcham, no mesmo compasso, com seus panos coloridos envoltos. No rosto, sinais de que os tempos são outros, máscaras nos olhos, preto noir número 3 da Avon. Caminham embaladas pela comemoração, no tiritim-tim borobom-bom feito ao longe pela banda marcial. Na cabeça o símbolo que muitos não acreditam mais. Não falam, nem um leve sorriso, ou falta de atenção. Só elas, enfileiradas, retas de um mesmo destino. Presas na mesma crença, nos mesmos modos, gestos gêmeos, traços semelhantes. Seguindo o mesmo ponto de fulga, fujir? Pra quê? Se elas têm o que precisam, jeans cós saint tropez, pulseiras em ouro 18 quilates, os nike shox cor-de-rosa fazem o mesmissimo movimento. Ploc, ploc, ploc, ploc. Perguntas? Escritas tortas nessas linhas perfeitas? Pra quê? Está ali, regime de semi-liberdade, antes que à tardinha.

***

Soldados fardados, passos controlados. O som da batida dos conturnos no asfalto enchem a minha mente de previsibilidade. Se tapar os ouvidos, ainda imagino o mesmo toc toc toc molhado, numa sincronia quase centésima. Meus olhos se cerram a cada batida, prevêm, bloqueam o pensamento. Toc toc toc num movimento tão ensaiado, que afugenta os loucos e embriagados. Treinados pra quem? Armados para qual inimigo? Civilidade calculada, cada um no seu quadrado helicoidalmente planejado. O que é a vida senão uma sequência exata de repetições? Mesmos erros, correm como os mesmos passos. Mas um cabo descordenado reaviva a esperança. Toc toctoc toc toc toctoc toc. Um som de sabedoria, no caminho certo marcado. Ele faz o melhor que pode, aumenta a intensidade, descompassa, desacelera, desintegra os entre-silêncios com uma ponta da minha esperança. Uma proporçao animadora, um em cem, que consegue fazer a diferença, mesmo que seja pela falha no desejo de acertar.

DESTAQUE PROSA: O gato e o monstro (Tauil)

Baseado em texto anônimo.

Os gatos, dizem, não são muito sociáveis. Diferente dos cachorros, se eles não gostam de algo, simplesmente viram as costas e se mandam. Se não querem, não fazem, e pronto. E ai de quem tentar forçá-los: acharão um outro lugar que os dê comida e abrigo. E se não acharem, e daí?, viram nômades. Os gatos já nasceram pobres, porém, já nasceram livres. Dito isso, imaginem meu espanto ao ouvir do veterinário que Hans, meu gato de ares germânicos, teria que ingerir um comprimido diário durante uma semana inteira em função a um probleminha nos rins. No primeiro dia tentei misturar o remédio junto à comida, mas nada feito. Intacto, o comprimido azul permanecia na vasilha enquanto Hans me olhava, e tive a impressão de que ele queria debochar de mim, de que eu precisaria de técnicas melhores. Em nome do altruísmo, resolvi relatar a vocês os dez passos necessários para realizar tal proeza caso algum dia passem por isso.

1. Aninhe o animal em seu colo, como se fosse acariciá-lo. Com uma mão segure o comprimido entre o polegar e o indicador. Com a outra, utilize três dedos ou mais para fazer uma leve pressão a fim de que ele abra a boca. Ponha o comprimido na boca aberta e deixe que o felino a feche sozinho.
2. Pegue o comprimido do chão e o gato detrás do sofá. Repita o processo.
3. Busque outro comprimido e dessa vez force o gato em seu colo, imobilizando-o se possível. Com a mão que não está segurando suas patas, force o comprimido goela a dentro e não o permita abrir a boca por pelo menos dez segundos. Isso deve ser o suficiente para que ele perceba que perdeu e engula o medicamento.
4. Limpe a regurgitação do chão e chame um amigo que não tenha estômago fraco, de preferência.
5. Tire o animal das cortinas e prenda-o entre seus joelhos, pressionando-o contra o chão. O amigo deverá abrir a boca do gato e com o dedo indicador empurrar mais uma vez o comprimido para dentro da sua garganta. Se necessário, recorra a uma colher.
6. Jogue fora a colher entortada e o comprimido expelido. Limpe o ferimento de seu amigo com água fria e sabão neutro.
7. Enrole o gato em uma toalha ou cobertor e o prenda com uma corda ao pé da mesa. Aguente firme os arranhões e guarde sua camiseta rasgada para pano de chão. Enfie o comprimido dentro de um pedaço de filé de peixe e com dois dedos force o alimento para dentro da boca do gato. Utilize água para auxiliar a deglutição.
8. Fique de olho no animal e não permita que ele não vomite, utilizando-se da força física se necessário.
9. Peça ao amigo para encomendar um novo tapete e uma nova cortina enquanto você recolhe os cacos dos vasos quebrados. Dê a ele uma caixa de curativos como gratificação. Diga aos seus vizinhos que está tudo sob controle, que não é necessário chamar a polícia e agradeça a paciência do síndico com o barulho.
10. Acaricie seu gato como se nada tivesse acontecido e respire fundo: ainda tem seis dias pela frente até o tratamento veterinário acabar.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s