Catatau (Paulo Leminski)

Ganhei o livro há quatro anos e confesso que sempre começava mas depois largava no meio. Minha teoria era de que Catatau deveria ser lido em um fôlego só. Quando percebi que jamais conseguiria ler dessa maneira, larguei mão e resolvi ler aos poucos, como pessoas normais fazem com os livros, sabe? De qualquer forma continuo achando que a experiência teria sido milhares de vezes mais legal se eu pudesse ler assim, e mais: ler em voz alta.

Catatau é isso, uma experiência. Um “romance ideia”. É uma leitura diferente, com uma intenção diferente partindo do autor. Nas palavras do próprio Leminski: “O Catatau é o fracasso da lógica cartesiana branca no calor, o fracasso do leitor em entendê-lo, emblema do fracasso do projeto batavo, branco, no trópico.” ((LEMINSKI, Paulo. Catatau Curitiba: Travessa dos Editores, 2004. p.271))

Por isso se você gosta de obras com enredos redondinhos, narrativas lineares e outras facilidades literárias, é melhor (infelizmente) passar longe do livro. Acredito que basta dizer que Catatau tem um só parágrafo para ter uma idéia do que estou falando. Mas se você vencer o “medo” de obras ditas “difíceis” (Joyce, Rosa, alguém?), eu devo dizer que a leitura é muito recompensadora, e a verdade é que lá pela página 30 você já pegou o “jeito” da coisa e lê sem qualquer problema.

Catatau surgiu de um estalo que Leminski teve enquanto dava aula de História. “E se Descartes tivesse vindo para o Brasil com Nassau?” O que vemos é exatamente isso. Temos Descartes (Cartésio) esperando Artiscewsky – no melhor estilo Vladimir e Estragon esperando Godot. Vemos o que Descartes vê, do jeito alucinado que ele enxerga o lugar onde está. A fala toda mescla diversas linguagens, numa tentativa de representar o que era a fala do Brasil na época. Neologismos diversos, além da utilização direta de tupi, latim, japonês, italiano, holandês, francês, grego, espanhol, inglês e alemão.

E mais do que brincar de forma brilhante com o sentido das palavras, é impressionante perceber o ritmo que ele dita durante a narrativa, que apesar de prosa em alguns momentos parecem poesia, é quase como se você estivesse lendo um dos haikais dele. E no meio de toda a confusão do pensamento da personagem, alguns momentos geniais com aquelas frases típicas do Leminski (por exemplo “Num universo impreciso, é preciso ser inexato, dizer sempre quase antes do dito.”). E é por isso que eu insisto na ideia da leitura de Catatau em voz alta, até para esse ritmo ficar mais óbvio, mais destacado.

O livro é realmente genial, e como falei anteriormente, vale a pena vencer o medo de não compreendê-lo . Como falou o próprio autor, “Dentro do Catatau, o leitor perde a mania de procurar coisas claras.” ((LEMINSKI, Paulo. Catatau Curitiba: Travessa dos Editores, 2004. p.273)) e o fato de mexer dessa maneira com quem lê a obra faz dela ainda melhor.É claro, tive a sorte de ler a edição crítica da Travessa dos Editores, que além do texto original ainda traz índice onomástico, estudo dos procedimentos neológicos, iconografia entre outros “detalhes” que no final das contas só ajudam a enriquecer a leitura. Uma pena que aparentemente essa edição está esgotada no momento.

(Esse artigo foi originalmente publicado no .:Hellfire Club:. em abril de 2009)

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