Emily Dickinson

Emily Dickinson

No Brasil a poesia dessa norte-americana nascida em 1830 é pouco conhecida – pelo menos para aqueles que não circulam com muita freqüência nas praias da poesia gringa. O que não deixa de ser uma pena, visto que tanto a escritora quanto os escritos são interessantíssimos. Ironia das ironias, enquanto a primeira é de uma complexidade de deixar biógrafos de cabelo em pé, a segunda é de tal simplicidade que talvez seja uma das razões pelas quais os trabalhos dela não são tão famosos quanto de outros poetas de língua inglesa.

Em vida, pouco de seus poemas foram publicados. Dickinson na realidade só fez uma tentativa com quatro poesias, mas foi aconselhada pelo editor da Atlantic Monthly, Thomas Wentworth Higginson, a não publicá-los, pois seu estilo de escrita não era “comercial”. Apenas após a morte da poeta que sua irmã, Lavinia, ao encontrar diversos de seus trabalhos, resolveu publicá-los. São mais de 1.800 poemas escritos durante o período em que viveu em Homestead.

Desses escritos, a maior parte lida com temas como a morte, a vida e a natureza – mas de um jeito bastante leve, simples. O que a diferencia é o estilo, que apresenta um ritmo diferente e a presença constante de travessões. Curioso é o fato de que as primeiras edições de poemas de Dickinson deixavam de lado o que seria considerado ‘extravagâncias’ da escritora, sendo que apenas edições mais modernas trazem os recursos estilísticos originais. Por exemplo, “How happy is the little stone…”, foi escrito assim:

How happy is
the little Stone
That rambles
in the Road
alone,
And doesn’t
care about
Careers
And Exigencies
never fears –
Whose Coat
of elemental Brown
A passing
Universe put on,
And independent
as the Sun
Associates
or glows alone,
Fulfilling absolute
Decree
In casual
simplicity –

Mas foi publicado inicialmente assim:

How happy is the little stone
That rambles in the road alone,
And doesn’t care about careers
And exigencies never fears —
Whose coat of elemental brown
A passing universe put on;
And independent as the sun,
Associates or glows alone,
Fulfilling absolute decree
In casual simplicity.

Desnecessário entrar na discussão dos males que esse tipo de “edição” pode causar aos trabalhos daqueles que estudam Dickinson, mas de certa forma há de se considerar se atualmente teríamos acesso fácil aos poemas se eles não tivessem aparecido inicialmente na forma “comercial” – embora também há de se questionar a intenção de Dickinson de ser lida, visto que com tantos escritos ela tenha tentado publicar poucos.

Com isso, chegamos novamente à complexidade da autora, o que de certa forma acaba influenciando muito a leitura de sua obra. Aos 20 anos Dickinson passou a se vestir apenas de branco, e decidiu não mais sair de casa. Recebia os amigos (poucos) em uma sala separada por uma tela, e ninguém além de sua mãe ou irmã podiam vê-la. Além da fama de “esquisita” local, essa reclusão também deu margem a vários debates sobre quais seriam as condições que levaram a poeta a se “esconder”, sendo a mais aceita uma doença (embora não se saiba qual).

Mas, mais do que isso, talvez o fator mais importante dessa peculiaridade da escritora sejam os poemas como por exemplo “I’m nobody! Who are you?”:

I’m nobody! Who are you?
Are you nobody, too?
Then there’s a pair of us — don’t tell!
They’d banish us, you know.
How dreary to be somebody!
How public, like a frog
To tell your name the livelong day
To an admiring bog!

Para quem ficou interessado no trabalho dessa brilhante poeta e estão com o inglês em dia, não deixem de comprar a edição da Barnes & Nobles, que está custando apenas 11 reais na Saraiva (não se deixe enganar pelo preço, é um livro importado com mais de 300 páginas e ótimos artigos sobre Dickinson).

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4 thoughts on “Emily Dickinson

  1. Nossa, 11 reais na Saraiva! Vou comprar e conferir a obra, já conhecia alguns poemas
    que me foram apresentados em cursos de inglês
    da vida. Gostei de conhecer um pouco mais sobre
    a vida dela, fiquei com vontade de ler a obra
    na íntegra (:

  2. Tenho feito um esforço de divulgação da excelente obra de Emily em meu blog. Meu apoio principal é o excelente livro de dona Aíla de Oliveira Gomes, Emily Dickinson, “Uma Centena de Poemas” (Ed. TA Queiroz, USP). Fico feliz que mais poemas estejam surgindo em português, para quem faz parte do Cânon da literatura anglo-saxônica e é tão pouco conhecida no Brasil.
    Abraço fraterno,
    Beto.

  3. Conheci Emily em 1983, por meio da professora Neusa, na Fundação Santo André, foi um dos encontros mais fascinantes de minha vida. Identifiquei-me com a ironia e o relativo “vazio” do discurso de Emily. Na verdade, um vácuo cheio de sentido e filosofia. A simplicidade em Emily é apenas camuflagem para a exposição de um dos pensamentos mais complexos da poesia universal.

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