Anatomia da poesia: One Art

Pode parecer estranho estabelecer uma relação entre criaturas feitas de carne e osso com outras feitas de palavras e idéias, mas o fato é que poesia é, de certa forma, um ser vivo. Tão vivo que depois de criada parece que ganha pernas e sai por aí, para todo o sempre (ou pelo menos enquanto a última cópia não sumir). É levando em consideração essa idéia que começo hoje a série “Anatomia da poesia”, que procura indicar os órgãos vitais de alguns poemas, visando estudá-los de uma forma um pouco mais divertida do que é feito em sala de aula.

E, para começar, coloco sob observação a brilhante poeta norte-americana, Elizabeth Bishop. O charme na poesia de Bishop vai além do domínio sobre as palavras: embora escreva na língua inglesa, tem muito do Brasil em suas obras – ou pelo menos das paisagens que ela viu enquanto por aqui passou. Vejamos então o que One Art pode nos oferecer.

Para começar, uma leitura completa do poema:

One Art
The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.
-Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

***

Tradução de Paulo Henriques Britto

“A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério. “

Agora à análise!

Cérebro: Assim como na língua portuguesa temos bastante poemas escritos em formas fixas (tal como haicai, soneto e balada), na poesia em inglês também podemos encontrar obras que seguem um padrão pré-estabelecido para números de estrofes, posicionamento de rimas, etc.

No caso de One Art, temos um bom exemplo de uma forma fixa conhecida como “villanelle”, que apresenta 19 versos distribuídos em 5 tercetos (estrofes de três versos) e 1 quadra (estrofe de quatro versos). Lembra, de certa forma, uma canção, até por apresentar dois refrões que se repetem alternadamente.

Na poesia de Bishop as idéias que se repetem são a de que a perda não é um desastre e que dominar a arte de perder não é difícil. Durante os cinco tercetos a poeta intercala o refrão com exemplos de perdas, das mais banais (chaves, relógios, nomes) para outras maiores (cidades, impérios, continentes).

Coração: Embora siga uma forma fixa, o que torna o processo de criação mais complexo já que não trata-se mais de dizer algo, mas também de respeitar as regras do “como dizer”, ainda assim One Art não é um poema frio: ele é todo sentimento, quente, e tão pessoal que, contraditoriamente, torna-se universal. Ao falar de suas próprias perdas, Elizabeth Bishop cria um vínculo com o leitor que se identificará com a idéia central.

Uma das formas de capturar o leitor é quando, no final, ao usar a expressão “Write it!“, ela deixa claro que está conversando com ele. Como em uma entrevista, ou conversa entre o sábio e o aprendiz. E é na conclusão do poema (a quadra) que toda a ironia e a paixão do discurso explodem ao mesmo tempo, com a utilização de uma única expressão.

Bishop salta de “The art of losing isn’t hard to master.” para um “The art of losing isn’t TOO hard to master.” A expressão “too”, que no inglês quando posicionado na frente do adjetivo indica algo que é mais do que você gostaria, deixa evidente que apesar do que disse anteriormente, quando o assunto é a perda da pessoa amada, as coisas mudam e a idéia de perda já não é mais tão simples quanto como quando tratava-se de coisas e lugares.

Aqui cabe uma curiosidade: nos rascunhos de Bishop para o poema, a conclusão de One Art fica muito mais explícita, como é possível ler nesse trecho:

All that I write is false, it’s evident
The art of losing isn’t hard to master.
oh no.
anything at all anything but one’s love. (Say it: disaster.)

Tradução livre:
Tudo o que escrevi é mentira, é evidente
A arte da perda não é dificil de dominar
oh não
qualquer coisa, qualquer coisa exceto o amor de alguém. ((Mais sobre os rascunhos pode ser encontrado neste site: The Drafts of “One Art”, em inglês))

Estômago: E quem é essa pessoa? Apesar de ser bastante contrária às leituras biográficas, para alguns poemas é simplesmente impossível não estabelecer uma relação entre vida e obra. One Art é quase uma biografia em versos. Como dito anteriormente, o Brasil é peça importante na vida da poeta, visto que ela passou mais de quinze anos por aqui.

Bishop fazia uma espécie de cruzeiro e resolveu desembarcar em Santos. Depois disso, foi para o Rio e lá reencontrou Lota (Maria Carlota de Macedo Soares, uma importante arquiteta carioca), ficando sob os cuidados da amiga brasileira por causa de uma reação alérgica a um pedaço de caju. Dos cuidados nasceu a paixão, e elas passaram a morar juntas em Petrópolis e depois em Ouro Preto (“I lost two cities, lovely ones.”), tranformando o lar em ponto de encontro dos intelectuais da época (“some realms I owned”).

Lota e Bishop romperam por volta de 1965, e a poeta voltou à terra natal para dar aulas na universidade. Um ano depois, recebe a visita de Lota, que acaba tomando um vidro de valium e se suicida. Quase dez anos depois, Bishop nos presenteia com One Art.

Comente esse artigo no Fórum Meia Palavra.

Advertisements

8 thoughts on “Anatomia da poesia: One Art

  1. Adorei sua idéia de analisar poemas dessa forma, Anica. =)
    E aproveitei pra conhecer a Elizabeth Bishop, de quem eu nunca tinha lido nada.

    Aliás, quando li seu texto (em primeira mã-ao, lá lá lá, lá XD), fiquei morrendo de vontade de te perguntar em que você se baseou para escolher cérebro, coração e estômago, tirando o fato de serem órgãos vitais, obviamente (afinal, você não ia escolher baço ou apêndice pra fazer a analogia, né). =P
    Na verdade o cérebro e coração ficaram bem claros, só o estômago mesmo que eu fiquei pensando “nossa, por que será que a Anica escolheu estômago?”

    Enfim, deve ser uma pergunta super besta, mas tá martelando na minha cabeça de bióloga até agora. XD

  2. Já havia lido Bishop antes, mais curiosa pela vida dela que por outra coisa, e admito que nunca dei muita atenção. Sua análise foi deliciosa. Leve, só que para mim, que não sou muito entendida, cheia de informação.

    Agora, Anica, uma pergunta: você é professora de literatura também? Se for aposto que desse jeito irá trazer muita gente para o “maravilhoso mundo das letrinhas”. =D

  3. : Na verdade eu pensei no estômago como o local que processará tudo o que foi consumido, aquela coisa de química e transformação. No caso, seriam os elementos da biografia dela que acabaram contribuindo para a criação da poesia. Não sei se falei bobagem, mas enfim, foi o órgão que achei que caberia melhor para essa idéia hehehe

    Cleo: Obrigadão =D Sobre a pergunta, não dou aula de Literatura, não. Bem que eu gostaria, mas aulas de Inglês aparecem mais facilmente do que aulas de Literatura =(

    (Obs. Editei o post para você e apaguei o outro, tá?)

  4. Também gostei da idéia de analisar dessejeito o poema, mas a diferença pra Rô é que eu já conhecia esse poema da Bishop… justamente em algum blog ou fotolog seu por aí XD

    Mas o que mais me chamou a atenção foi o título. Me lembrou de um poema Anatomy of a Cliché, de Michael Hartnett, que na tradução do Marcelo Tápia ganhou o nome de “Anatomia de um clichê”. Não tem tanto a ver, mas eu me lembrei ^^

    Agora quero só ver qual vai ser o próximo poema 🙂

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s