Invenções Literárias (parte II)

Dando continuidade à série “Invenções Literárias”, agora deixamos de lado as inspirações causadas por um monstro famoso para focarmos em um dos maiores detetives da Literatura. Quem? Elementar, meu caro leitor! Sherlock Holmes ((Observação: nos livros Holmes nunca disse “Elementar, meu caro Watson”. O bordão na realidade foi dito pela primeira vez pelo ator William Gilette, um dos primeiros a interpretar o detetive no teatro.))! Criado no final do século XIX pelo então médico Sir Arthur Conan Doyle, Holmes tinha uma característica bastante marcante: a obsessão pela utilização do método científico ao investigar um caso.

Reza a lenda que esse traço da personalidade de Holmes é baseado em uma pessoa real que Conan Doyle conheceu, um professor da Universidade de Edimburgo chamado Joseph Bell. Seria herdada de Bell a mania de querer saber a verdade através dos menores detalhes. E é a partir dessa mania que chegamos à nossa invenção literária parte II: o luminol.

Para aqueles que não são apaixonados por séries investigativas no estilo CSI o termo pode parecer relativamente novo, mas devido ao recente caso com a menina Isabella, o método tem sido amplamente citado pela imprensa. Trata-se de um composto que reagirá de tal forma com a hemoglobina que lugares aparentemente “limpos” revelarão no escuro um brilho que indicará a presença de sangue. O cientista por trás da idéia é H. O. Albrecht, que em 1928 criou a famosa reação com peróxido de oxigênio que seria tão amplamente utilizada em investigações.

Mas agora retorne um pouco no tempo, mais precisamente para o ano de 1887, data da primeira publicação de Um Estudo em Vermelho. No primeiro capítulo da obra de estréia de Conan Doyle é retratado o primeiro encontro entre Holmes e o Dr. Watson. Em dado momento, lemos o seguinte diálogo entre os dois:

“Ora, homem, esta é a maior descoberta prática médica-legal em anos. Você não vê que ela nos dá um teste infalível para manchas de sangue. Venha até aqui agora!” Em sua ansiedade ele agarrou-me pela manga do casaco , e me levou até a mesa em que estivera trabalhando. “Vamos ter um pouco de sangue fresco,” ele disse, inserindo uma longa faca em seu dedo e colhendo a gota resultante em uma pipeta química. “Agora, eu adiciono esta pequena quantidade de sangue em um litro de água. Você percebe que a mistura resultante tem aparência de água pura. Eu não tenho dúvidas, no entanto, que obteremos a reação característica.” Enquanto falava, ele jogou no recipiente alguns cristais brancos, e adicionou então algumas gotas de um líquido transparente. Em um instante o conteúdo assumiu uma cor de mogno escuro, e uma poeira marrom foi se precipitando para o fundo do recipiente de vidro.

“Ha! ha!” ele gritou , batendo suas mãos, e olhando com o deslumbre de uma criança com um novo brinquedo. “O que você acha disso? ”

“Isto parece ser um teste muito delicado,” comentei.

“Esplêndido! Esplêndido! O velho teste de Guiacum era muito tosco e incerto. O mesmo cabe dizer do exame de corpúsculos de sangue… Este último é inútil se as manchas ainda possuem poucas horas. Agora, este teste parece agir bem se o sangue é antigo ou novo. Se este teste houvesse sido inventado antes, milhares de homens que agora andam sobre a terra há muito já teriam pagado a penalidade por seus crimes.

“É verdade!” murmurei.

“Os casos criminais sempre giram ao redor do mesmo ponto. Um homem é suspeito de um crime talvez meses depois de ter sido cometido. Seu traje ou suas roupas são examinados e descobre-se uma mancha marrom neles. Será que são manchas de sangue, de barro, de ferrugem ou de frutas? Esta é uma questão que tem intrigado diversos peritos e porquê? Porque não havia nenhuma prova fiável. Agora nós temos o teste Sherlock Holmes e não haverá mais nenhuma dificuldade.”

Seria o teste de Holmes o vovô do luminol? A verdade é que embora o reagente do detetive da ficção não brilhasse como o do químico Albrecht, ainda assim o conceito básico de reagir com a hemoglobina estava ali, presente na obra de Conan Doyle. Mais um ponto para a ficção como musa inspiradora.

Sugestão de leitura:

DOYLE, Sir Arthur C. Um Estudo em Vermelho. São Paulo: Editora Ática, 1994. (Excelente texto de introdução da série Eu Leio).

Se gostar assista:

Vestida para Matar (1946) – Filme completo em inglês disponível no GoogleVideo.

O Enigma da Pirâmide (1982)

Download de obras:

Obras em inglês de Conan Doyle disponíveis no Projeto Gutemberg.

Ebook em português: Um Estudo em Vermelho

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